Nenhum técnico é bom o suficiente para o Flamengo. Jesus seria, se tivesse continuado?

Créditos da imagem: Montagem / No Ângulo

Após alguns resultados flamenguistas decepcionantes, que sugerem o natural encerramento de uma rotina de goleadas em série absolutamente fora do normal, Renato Gaúcho começa a receber as primeiras críticas na Gávea.

O Flamengo tradicionalmente tem essa bipolaridade, com seus personagens ficando constantemente entre o céu e o inferno. Mas, em relação aos técnicos, tudo ficou muito pior depois dos meses encantados sob o comando do português Jorge Jesus. Desde sua saída, todo trabalho de quem estiver treinando o rubro-negro é analisado sob a seguinte chave: está repetindo o padrão de Jesus ou não?

O Mister saiu do clube no meio de 2020 e foi substituído pelo espanhol Dome, que vivia com a eterna sombra de “querer inventar” em vez de “manter o que o Jesus fazia”. Ainda que tivesse que conviver com saída de atletas, lesões e convocações para a seleção, sem pré-temporada e tempo para treinamento, seu Flamengo alternava altos e baixos, tendo praticado nos bons momentos aquele que entendo ter sido o melhor futebol do Brasil em 2020 (superior inclusive a Jesus no mesmo ano). Só que enquanto lidava com esses problemas e a criação de um novo time, mesmo estando bem colocado no Brasileiro e classificado para as oitavas da Libertadores e quartas da Copa do Brasil, foi precocemente demitido por sofrer algumas goleadas (como a que o time de Renato sofreu recentemente para o Inter).

O Flamengo então trouxe Rogério Ceni, que, com o entusiasmado coro de boa parte da imprensa, prometia “retomar o time de Jesus”. Estava tudo preparado para uma narrativa na linha “pronto, agora que saiu o Professor Pardal catalão, e vão recorrer à receita lusitana de arroz com feijão, tudo voltará ao normal”. Resultado: Ceni também sofreu goleada, foi eliminado da Copa do Brasil e da Libertadores, o time só melhorou após a volta de lesionados e convocados, o aproveitamento de pontos foi basicamente o mesmo do ex-comandante espanhol, e o título brasileiro só veio graças à incompetência colorada para bater um inofensivo Corinthians em Porto Alegre.

Logo, aquele que chegou prometendo resgatar o time de Jesus, tornou-se o problema. Qualquer insucesso flamenguista era colocado na conta do ex-mito são-paulino. Ou seja, o ciclo se repetiu, até a previsível demissão.

Então foi a vez de Renato assumir com a incumbência de ser o “restaurador do time de Jesus” da vez. As goleadas foram uma constante e com poucos jogos seu nome passou a ser falado para a Seleção Brasileira, a despeito de que há mais de dois anos vinha sendo merecidamente criticado por seu trabalho no Grêmio. Vamos ver quando é que ele se tornará o problema.

Isso ilustra nossa falta de compreensão sobre desenvolvimento de trabalho e de diferentes possibilidades de formação de times. No fundo, aqui ainda acreditamos que um time tecnicamente superior aos adversários só precisa não ser atrapalhado pelo técnico. Desconsideramos que, em muitos casos, a própria ideia que fazemos de superioridade de um jogador tem a ver com seu papel na engrenagem da equipe formada por seu técnico. Se Jesus levou o Flamengo a um nível de jogo que ninguém imaginava antes de sua chegada, os parâmetros foram imediatamente atualizados para que esse fosse tido como o natural com esses jogadores. Qualquer coisa abaixo disso é tida como falha do técnico. Aqui nunca veríamos a evolução que treinadores como Guardiola e Klopp conseguem promover em suas equipes ao longo de temporadas, porque às primeiras instabilidades não nos permitiríamos esperar por ela.

A sombra de Jesus seguirá pelos lados da Gávea, e penso que pode ser cada vez mais danosa. O Flamengo de 2019 não existe mais. O técnico e jogadores saíram, o nível dos adversários subiu muito desde então, e alternativas teriam que ser desenvolvidas a rivais cada vez mais habituados àquele time. Não existe “piloto automático”, tudo é cíclico. Inclusive com Jesus seria. Tanto que em 2020, treinado pelo português, já não repetia o padrão de 2019, mesmo enfrentando rivais fracos do estadual e fase de grupos da Libertadores. E é bom lembrar que até 2018 Tite poderia ser eleito Presidente da República, mas desde a Copa a maioria já não o suporta mais.

No comecinho o luso também chegou a ser alvo de cornetas após eliminação da Copa do Brasil para o Athletico, a derrota por 2 a 0 para o Emelec nas oitavas da Libertadores (quando tinha o time esfacelado e recebeu críticas implacáveis por escalar Rafinha no meio) e tomar um baile de 3 a 0 para o Bahia. E se teve muita competência ao final de tudo, a sorte lhe sorriu ao passar pelos equatorianos nos pênaltis e assim poder implantar seu trabalho. Mesmo depois disso, sua estrela brilhou ao quase não ter desfalques enquanto disputava praticamente todos os jogos com força máxima, e Lucas Pratto não ter segurado a bola no lance que originou a épica virada rubro-negra nos instantes finais da decisão da Libertadores. O fato de Felipão, Mano Menezes e Carille estarem entre os principais treinadores locais da época também ajudou muito. Com a vinda de mais estrangeiros a partir de seu trabalho e do de Sampaoli, o sarrafo para técnicos no nosso futebol subiu demais, e os bons resultados continentais de nossos clubes atestam isso.

Enquanto a referência estiver sempre naqueles poucos meses mágicos do segundo semestre de 2019, nada será satisfatório. Mesmo com Jesus, afinal, “e viveram felizes para sempre” não passa de conto de fadas, especialmente no futebol brasileiro.

Deixe sua opinião e colabore na discussão