Falcão e seu autoengano

Créditos da imagem: Reprodução / Lance

Um dos maiores (provavelmente o maior) jogadores de futsal de todos os tempos aproveitou, mais uma vez, entrevista em podcast para responsabilizar Leão pelo insucesso no SPFC no ano de 2005, em sua segunda tentativa de atuar profissionalmente nos gramados – a primeira foi na Portuguesa. Quanto mais o tempo passa, mais fácil uma narrativa seduzir desavisados e arrumar falsas impressões como a de que Falcão esteve perto de ser competitivo em campo. Coisas que você deveria lembrar ou saber:

1 – double bet – Marcelo Portugal Gouvêa teve, talvez, a melhor presidência do SPFC em muitas décadas. O que não quer dizer que deixava de cometer erros grotescos e brincar com a sorte. Em 2003, em meio a reclamações até histéricas para trazer um zagueiro, cedeu aos encantos de Juan Figer. O empresário e o clube anunciaram acordo para trazer um jovem zagueiro uruguaio da seleção pré-olímpica, chamado Diego Lugano. Não demorou para descobrirem que não era de seleção sub-23 nenhuma, nem que era extremamente limitado. Mas Lugano ralou, ralou e após alguns meses começou a atuar, virando titular no meio do ano seguinte, como zagueiro de sobra. Sorte tremenda maquiando um erro amador.

O que Falcão tem a ver com isso? No final de 2004, a reclamação da torcida era com a falta de um ídolo na linha. Após uma conversa casual com o irmão de Falcão, que foi consertar algum aparelho eletrodoméstico em sua casa, MPG acreditou na versão de que fora boicotado na Lusa e que poderia ser o novo “jogador do presidente”. Logo vieram as abobrinhas de costume, como “imaginem as vendas de camisas”, com a torcida entrando em outra viagem na maionese presidencial.

2 – que hora, não? – o São Paulo estava completando 10 anos sem um título fora do estado. Embora o Paulistão ainda não fosse essa competição (muito) menor de hoje, não era confortável ver todos os rivais conquistando coisas mais importantes. O então diretor de futebol Juvenal Juvêncio, mesmo já antiquado, percebeu um filão para reforçar o time. No discurso, o clube falava mal da Lei Pelé. Na prática, aproveitava para trazer jogadores sem contrato ou em final de vínculo. Danilo, Fabão, Rodrigo e Cicinho foram alguns dos reforços desta linha. Outros estavam de malas prontas, como Mineiro e Josué. Juvenal e o técnico Leão acreditavam que daí viria o salto dos já incômodos terceiros lugares para o topo.

Novamente, o que Falcão tem a ver com isso? Um (raro) planejamento (também raro) sério estava sendo executado, sem grandes custos pelo diretor. Aí o presidente resolve trazer um aspirante a atleta de futebol, desviando foco e prioridades. O que seria mais importante? Ganhar ou transformar Falcão em boleiro? Era algo que, obviamente, exigiria muitos treinos e também muitos minutos. Mudar da quadra para o campo não é questão de talento. É de posicionamento e, principalmente, movimentação para atacar e marcar. A passada é muito mais curta no futsal. Consequentemente, a musculatura também é outra. Por isso quem veio do chão duro para a grama o fez ainda adolescente, como Rivellino, Ronaldo e Neymar. Com um adulto, não é algo que se ajusta em semanas. Leva meses, por baixo. O São Paulo tinha coisas bem mais urgentes a conseguir.

3 – má vontade, sim. E como ser diferente? – Émerson Leão, atleta e treinador de personalidade notável, nunca foi um dos mais inteligentes. Porém, tinha um método competente para a época (tanto que chegou a ser testado na seleção) e estava em seu melhor momento da carreira. Bancou os garotos da Vila Belmiro e tirou o Santos de longa fila. Foi com essa imagem, após os fracassos com o tranquilo Osvaldo Oliveira e o nervoso Cuca, que dobraram a resistência de Juvenal Juvêncio e Marco Aurélio Cunha – com quem Leão brigara no Santos. Leão assumiu um time moralmente arrasado e, cheio de frases confusas (“Tevez eu não conheço na totalidade, Grafite eu conheço na intimidade”), recuperou a equipe na reta final. Como dito pelo então setorista Alexandre Lozetti, fez o time detestar a derrota.

Sim, o que Falcão tem a ver com isso? Leão não estava no clube para realizar metamorfoses improváveis. Ele queria vencer. Falcão veio para jogar como meia canhoto. Justamente a posição em que atuava Danilo, alicerce do time na segunda metade de 2004 e detestado por parte da torcida. A mesma parte da torcida que continuou reclamando de seu futebol mesmo após participar de mais de um terço dos gols na Libertadores. A mesma parte da torcida que ficou com cara de tacho quando Danilo fez mais ainda pelo Corinthians. Eram esses que, contra todas as probabilidades, enchiam a curta paciência de Leão para trocar um jogador importante por uma fantasia. Iam querer que o técnico ficasse feliz?

4 – a estreia memorável, porém enganosa – na primeira partida de 2005, o São Paulo vencia o Ituano e Leão resolveu atender aos berros das arquibancadas. Falcão entrou com moral e superconcentrado. Com o adversário já cansado, teve espaço para jogadas bonitas e úteis. Porque o problema da transição, repito, nunca foi a bola no pé. É todo o resto. Futebol não é como aquelas propagandas da Nike. Tem que se mexer, e em ritmo de profissional. Após a euforia do primeiro jogo, Falcão pouco fez na segunda oportunidade e ainda tentou uma bicicleta de fora da área, deixando Leão ainda mais antipatizado com a ideia de jerico – digo, do presidente.

Mesmo nos animadores minutos iniciais, era nítido como o campo parecia ter o triplo do tamanho para Falcão. Precisava de duas ou três passadas para o que os demais percorriam numa só. Ainda assim, não dá para dizer que Leão desistiu de vez, pois chegou a colocá-lo para segurar a bola numa partida de Libertadores, com o placar ainda apertado. Com paciência e muito treino, talvez Falcão ficasse fisicamente apto a atuar profissionalmente em seis meses. Não para ser, em campo, o jogador fora de série que era na quadra. Mas poderia ser um boleiro de verdade. Se tivesse topado.

5 – a culpa é dos outros? – Falcão não entendia, e parece não entender até hoje, as dificuldades para mudar. Queria que tudo desse certo rapidamente. Como o milagre não ocorreu, passou a estudar ofertas para voltar ao futsal. Disse ao SPFC que seria a sua decisão, caso não tivesse a garantia de atuar mais. Ora, estamos falando de uma equipe campeã paulista com folga (o torneio foi de pontos corridos), liderando a chave na Libertadores e com jogadores se saindo bem individualmente – incluindo Danilo. Como prometer prioridade a um quase-jogador em detrimento da equipe? Não. O SPFC, apesar das trapalhadas já flagrantes do cardealismo, sabia que a distância para os outros era curta e poderia ultrapassá-los naquele ano. Se deixasse para depois, poderia ser tarde demais.

E assim terminou a relação. Melhor para quem? Para todos os envolvidos. Falcão era o melhor jogador do mundo no futsal, mas ainda precisava de mais feitos e conquistas para se tornar uma lenda do esporte. O São Paulo ganhou a Libertadores (e isso entrou para o currículo de Falcão) e o Mundial. Voltou, por alguns anos, a ser o adversário indesejado de todos. Essa foi a história de como uma contratação estúpida não deu certo, mas foi superada sem traumas e com glórias pelos personagens.

PS: caso eventuais familiares e admiradores de MPG se sintam ofendidos, não vou pedir desculpas. Também tenho admiração e gratidão, mas há que se falar dos fatos como foram. Mais uma vez ele deu sorte, porque o fracasso acabou sendo irrelevante no ano. Bom para sua memória. Não para a minha e a dos demais, que merecem a informação precisa.