“Machismo” de quem? – onde sempre esteve o preconceito

Créditos da imagem: Marcos Ribolli

(Sobre o “sim” de Richarlysson. E mais)

Richarlyson se declarou bissexual e foi comparado a Ricky Martin por não surpreender ninguém. Só que, quando o Ricky cantor saiu do armário, diversos astros da música já tinham a sexualidade bem conhecida. Diferente de um ex-jogador de futebol da primeira divisão, com passagem pela seleção e conquistas importantes no currículo. Por mais que já desconfiassem ou tivessem certeza, é um marco. Mais: justamente por não surpreender, o trânsito livre e tranquilo entre os atletas (colegas ou adversários) mostra que a história do “futebol machista” não é bem assim. Primeiro, por razões semânticas. Segundo, quanto aos verdadeiros preconceituosos.

Num país em que palavras têm significados recriados na base da falta de vocabulário (“naturalizar” não é sinônimo de normalizar) ou bandeira ideológica, também não surpreende que usem a palavra “machismo” onde haveria homofobia. Não é, de modo algum, a mesma coisa. É possível não ser machista e ser homofóbico e vice-versa. O temor de boleiros homo ou bissexuais diz respeito aos efeitos da homofobia. Mas de quem? Logo se pensa nos elencos. Falso. Antes mesmo que Richarlyson se tornasse profissional pelo Santo André, já havia histórias sobre jogadores, sem citar nomes, que chegavam a levar namorados ao treino. Ninguém dedurava, ninguém reclamava. É óbvio que, por diversas motivações ou ignorância, nem todos os colegas aprovam. Mas, mesmo entre estes, o respeito prevaleceu com outros e também com o polivalente ex-tricolor e ex-Galo.

Como são-paulino, acompanhei a carreira de Richarlyson desde que o Santo André eliminou meu time na Copinha, em 2003. Quando contratado, já havia comentários sobre seu estilo espalhafatoso. Momentos como a comemoração do primeiro gol tornaram mais sugestiva a sexualidade, mas nem por isso se soube de resistência interna. Tanto que já tinha quase dois anos de clube quando se tornou titular, em 2007. Coincidentemente, ano em que uma declaração infeliz de dirigente do Palmeiras, seguida por sentença muito discutível (em especial pelo linguajar) lançou holofotes de fora do futebol sobre o jogador – que seria o atleta que sairia do armário no Fantástico. Não saiu, mas foi um dos destaques da equipe bicampeã brasileira. Depois teve altos e baixos, mas boa parte da torcida aprendeu a criticá-lo apenas pelo futebol exibido. E a outra parte? Pois é…

Mesmo titular, campeão e tendo jogado pela seleção no início de 2008, Richarlyson não tinha o nome cantado pelas torcidas organizadas antes dos jogos. Gols seus eram menos comemorados e sem homenagens ao autor. Pior: a diretoria do clube, em vez de tomar providências contra uma discriminação pública (pelo que achavam que era), seguiu ajudando economicamente os preconceituosos. A inclusão de Richarlyson na calçada da fama, em segunda lista, soou mais como tentativa de compensação forçada do que reconhecimento – mesmo porque nomes melhores ainda seguem de fora. Neste contexto, tampouco surpreendeu que, com a desculpa de que 20 h seria alusão a sua camisa, o tricolor tenha homenageado o jogador depois do Corinthians. Ainda assim, sem citar diretamente a atitude corajosa. Nestas horas se sabe quem realmente manda.

Portanto, talvez a homofobia no futebol não ocorra onde se presume. Por mais que se pinte o jogador de futebol padrão como tosco e desinformado, o preconceito visível está fora do vestiário. Está no torcedor. Está no dirigente. Está no jornalista que só agora, por medo de cancelamento, pisa em ovos ao falar do tema – principalmente quando envolve o “bambi”. Por isso é importante que o ex-jogador tenha dito o que todos já sabiam. Permite que mais gente aprenda a falar de alguém pelo que joga – ou não joga – nas quatro linhas. Incluindo os atuais colegas de profissão do hoje comentarista esportivo.