Paulistão ganha mais um pouco de fôlego

Créditos da imagem: Montagem / No Ângulo

Todo começo de ano, temos a mesma discussão no Brasil: por que se gastar tempo e dinheiro na disputa de campeonatos regionais? Apesar de ter uma posição menos agressiva em relação ao assunto (explico a seguir neste texto), entendo que o debate tem razão de existir. Afinal, não dá para comparar o Paulista, por exemplo, com o Brasileiro, a Libertadores, Mundial e até mesmo com a Copa do Brasil. E as estapafúrdias formas de disputa dos regionais, como o Paulista e o Carioca, ajudam ainda mais a esvaziar esses torneios.

Mas quando a fase semifinal do Paulista tem a participação dos quatro grandes (mesmo que haja um desnível atualmente entre eles) é a grande chance de o regional empolgar. Até a definição do campeão deste ano, teremos Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo envolvidos em seis partidas embaladas pelas rivalidades e pelas discussões, provocações e gozações entre os torcedores. Um pouco de vida em uma competição que há anos parece à beira da morte.

Eu vivi a época em que os regionais eram o objetivo do ano das equipes brasileiras. Mesmo depois da criação do Campeonato Brasileiro, ainda demorou mais de uma década para a competição nacional se sobrepor às regionais. A Libertadores padecia do mesmo mal. Para ilustrar, cito três diferentes exemplos que comprovam essa história:

  1. Em 1979, a Confederação Brasileira de Desportos (CDB) organizava seu último Brasileiro -foi criada nesta época a CBF. Chegando ao fim, o regime militar no país queria fortalecer o seu partido, a Arena. Decidiu-se então inchar o Brasileiro, que começou com 80 participantes. Era a época da frase: “onde a Arena vai mal, mais um time no Nacional”. Isso tirava datas do Campeonato Paulista. Revoltados com a decisão, Corinthians, São Paulo, Santos e Portuguesa de Desportos deram uma banana para a CBD, boicotaram o Campeonato Nacional e se dedicaram exclusivamente ao Paulistão;

  2. E nem precisa ir tão longe. Em 1992, Telê Santana, técnico do São Paulo, priorizou o clássico contra o Palmeiras, pelo Paulistão, e colocou um time misto na estreia da Libertadores, fora de casa contra o Criciúma. Perdeu por 3 a 0 dos catarinenses e ficou em segundo lugar em sua chave, um ponto a menos que os rivais. Para compensar, no final, Telê levou o Tricolor a sua primeira conquista da Libertadores.

  3. O famoso tabu dos 11 anos (1957-1968) em que o Santos não perdeu para o Corinthians diz respeito exclusivamente ao Paulista. A história registra quatro vitórias do Corinthians sobre os santistas neste período (27/03/1958 Corinthians 2 x 1 Santos, Torneio Rio-São Paulo; 21/03/1960 Corinthians 2 x 1 Santos, Torneio Rio-São Paulo; 29/03/1961 Corinthians 2 x 0 Santos, Torneio Rio-São Paulo; 16/06/1962 Corinthians 3 x 1 Santos, Taça São Paulo). Mas nem os corintianos contestam que o tabu existia porque, afinal, o que importava era o Paulista.

Claro que tudo isso mudou. Esses fatos são do século passado. Eu entendo e concordo que as prioridades hoje são os grandes torneios nacionais, continentais e o mundial. Mas tenho dúvidas em relação a essa defesa intransigente do fim dos regionais.

O Estado de São Paulo revela anualmente bons jogadores que têm a chance de aparecer em times considerados pequenos. Sem a vitrine do Paulistão, certamente as revelações diminuirão. O mesmo acontece no Rio, Minas e Rio Grande do Sul.

Os torneios locais de Estados menos vencedores no plano nacional também revelam jogadores. Além disso, mantêm a chama acesa das rivalidades regionais e da identificação dos torcedores. Estava no Ceará quando foi anunciada a contratação de Rogério Ceni pelo Fortaleza. Não havia um bar, restaurante ou táxi em que o assunto não fosse motivo de conversas. Torcedores do Ceará secando a contratação e os do Fortaleza se gabando.

Bahia, Vitória, Santa Cruz, Náutico, Sport, Ceará, Fortaleza, ABC de Natal, Treze, ASA, CRB, CSA, Avaí, Figueirense, Joinville, Chapecoense, entre outros, mantêm a chama da rivalidade acesa em seus estados. E ainda usam as competições regionais como trampolim para boas campanhas nos Brasileiros das séries A e B.

E sofrem com a concorrência dos grandes nacionais, que cada vez mais conseguem torcedores em todas as regiões do país. Mesmo fenômeno que esses grandes nacionais sofrem nos últimos anos diante dos gigantes mundiais. Camisas de Barcelona, Real e outros europeus já competem com os brasileiros nas vendas em lojas de esporte.

Precisamos racionalizar o calendário e diminuir as datas dos regionais, para que tenhamos mais pré-temporada e menos acúmulo de jogos. Mas sou contra o fim total dos estaduais. Esses torneios ainda cumprem um papel importante na estrutura de nosso futebol.

2 comentários em: “Paulistão ganha mais um pouco de fôlego

  1. Realmente essas semifinais dão uma agitada no Paulista, mas aposto que os eliminados nas semi nem ficarão tão chateados (a não ser que tenha goleadas e demais constrangimentos) assim. Justamente pela perda de importância dos estaduais. Ainda mais que Corinthians, Palmeiras e Santos estão na Libertadores, né…

    Fora toda a questão da falta de competitividade, acho que os estaduais acabam vulgarizando esse tipo de confronto…

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