“Quando ‘nóis qué’, ninguém tira?” Tira, sim.

Créditos da imagem: Reprodução / Trivela

Cada vez mais, tenta-se recontar o passado. A reprise da final da Copa das Confederações de 2005, em continuidade à decisão da Copa do Mundo de 2002, é um destes casos. Procura-se passar a mensagem subliminar de que, “quando joga com vontade”, ninguém segura a amarelinha. Tanto que, quando perguntam por que esse time teve uma participação decepcionante na Copa de 2006, a explicação foca o péssimo preparo, com jogadores fora de forma fazendo treinos meia-boca. Resumindo: não ganharam porque não quiseram. Seria tão simples, adivinhem, se fosse tão simples.

Como se sabe, a mentira moderna é chamada de narrativa. Consiste em selecionar umas verdades e omitir outras. É fato que, a rigor, Parreira tinha uma gama de atletas mais pronta que a do antecessor. A seleção era temida por uma soma de nomes. Só que um grande time não se faz com soma, e sim uma boa combinação. Especialmente se o tempo é curto. Alguns podem ser sacrificados em nome do equilíbrio. Vide 2002, com o próprio Brasil. Juninho Paulista era bem mais jogador que Kleberson, mas foi a substituição daquele por este, contra a Bélgica, que encaixou a equipe. Dezesseis anos depois, a mesma Bélgica abriu mão de Mertens, muito melhor que Fellaini, e vingou a derrota anterior. Mas quem levou o caneco foi a França, com o limitado Giroud viabilizando o entrosamento entre Griezmann e Mbappé. Venceu o time competitivo. Não o dos sonhos.

“Ah, mas se o time deu show contra a Argentina, então vai dizer que não encaixou?”. Neste caso, realmente precisamos ir por partes:

1 – o time que jogou aquela final tinha quatro jogadores que não fizeram parte do time-base de Parreira. Três deles no sistema defensivo. Cicinho e Gilberto jogaram pelas laterais e Roque Junior foi o zagueiro. No ataque, Robinho atuou no lugar de Ronaldo, que foi poupado da disputa ao lado dos laterais titulares Cafu e Roberto Carlos, ficando Adriano no comando de ataque.

2 – para a Copa do Mundo, Parreira recolocou os medalhões nas laterais, Juan voltou à zaga e, no lugar da alteração ortodoxa de um centroavante no lugar de outro, decidiu usar Ronaldo e Adriano juntos. Mesmo que os dois estivessem em forma (e não estavam), esta composição do “quadrado mágico” necessariamente fazia o time marcar com sete, o que já era suicídio tático. Nem Adriano, nem Ronaldo e muito menos Ronaldinho Gaúcho acompanhariam o lateral pela esquerda. Numa equipe com laterais veteranos, isso simplesmente não teria como dar certo.

3 – Parreira admitiu que chegou a pensar em repetir algo mais parecido com o escrete campeão um ano antes. Inclusive, com a seleção classificada, usou Cicinho, Gilberto e Robinho contra os japoneses. Os três não apenas foram bem, como foi a única boa atuação de Ronaldinho e Ronaldo, mesmo acima do peso, marcou dois gols. Mas Cafu estava atrás de recordes. Roberto Carlos era Roberto Carlos. Adriano decidira duas competições seguidas para o Brasil. Para surpresa de ninguém, eles voltaram.

4 – mais adiante, Juninho Pernambucano (também presente contra o Japão) foi quem ocupou o lugar de Adriano, teoricamente para dar liberdade a Ronaldinho contra a França. Faltou combinar com os russos, digo, os franceses.

“Ah, mas isso só mostra que o time de 2005 teria ganhado a Copa do Mundo!”. Como está na moda dizer, não há garantias disso. Não mesmo. Da mesma forma como o Brasil ganhou as Copas das Confederações de 2009 e 2013 e, mesmo repetindo os times-base, não deixou saudades na competição que importava. A exibição contra a Argentina teve momentos brilhantes, mas de certa forma destoou de uma campanha irregular em torneio de nível fraco. Mesmo a Alemanha, dona da casa, vinha longe de indicar a campanha digna que seus garotos fariam em 2006. O outro representante europeu era a Grécia, campeã continental quase por acaso – e que nem se classificou para a Copa do Mundo. Além disso, o conceito de “quadrado mágico” já era ultrapassado até no Brasil. Dois meias-atacantes centralizados eram mais úteis à marcação adversária.

Exagero? Pois voltemos a 2002, ano glorioso dos três Rs. Felipão veio a admitir que o aparente 3-5-2 era, na verdade, um 4-4-2 com três volantes. Edmílson, zagueiro, voltou à sua posição original (em que seria titular no Barcelona). Gilberto Silva foi o segundo volante e Kleberson o terceiro, com o mesmo perfil de Elano em 2010. Este terceiro volante era ofensivo, porém atuava mais para o lado e deixava o meia-atacante com o centro. Para a época, com o posicionamento espaçado de uma área a outra, dava equilíbrio e evitava que um jogador acabasse “marcando” o próprio companheiro. Ou seja: na linha ortodoxa, Kaká seria reserva de Ronaldinho. Ou então, para ter ambos, este deveria ser deslocado para o ataque. Foi o que se pretendeu fazer com Juninho Pernambucano no lugar de Adriano. Porém, praticamente sem treinar, ninguém se achou em campo.

“E se, no fim das contas, Parreira tivesse repetido a escalação que goleou o Japão?” Talvez funcionasse. Talvez não. O Japão, então treinado por Zico, foi um dos maiores fiascos da competição. Em outros tempos, o técnico e o elenco teriam sido forçados ao haraquiri. Cicinho certamente se mexeria mais que Cafu e atacava melhor naquele momento, mas nem no São Paulo se confiava em seu poder de marcação. “Ah, mas e se entrasse Mineiro, que estava voando no São Paulo?”. Quando começa a faltar isso, aquilo e algo mais, é sinal de que realmente faltava muito mais. Melhor parar por aqui. A Copa de 2006 não foi de lamentar. Foi pra esquecer.

Um comentário em: ““Quando ‘nóis qué’, ninguém tira?” Tira, sim.

  1. “A Copa de 2006 não foi de lamentar. Foi pra esquecer.”

    Perfeito! Se é para lamentar, melhor gastar vela com 2010 e 2018, quando dava para imaginar que a Seleção teria melhor sorte caso não tivesse sido eliminada em situações um pouco atípicas. Já a de 2006 foi dominada de cabo a rabo pela França e em momento algum deu qualquer sinal concreto de que poderia ser campeã.

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