Que a diretoria do São Paulo não deixe o bonde passar

Créditos da imagem: Lance!

Ao contrário de muita gente, nada tenho contra as torcidas uniformizadas. Sou contra alguns torcedores, que talvez pareçam muitos, porque, bobos e inocentes, acabam seguindo os tais líderes. Alguns por medo deles. Sou contra, isso sim, esses maus elementos que dela fazem parte. Como sou contra médicos que fazem aborto criminoso, advogados que lesam clientes, padres que não cumprem fielmente suas obrigações. A relação é longa.

Torcida uniformizada bandida, briguenta, que explora garotos de boa índole que são por elas atraídos, não é coisa de tanto tempo assim. Sou antigo nessa estrada, e na caminhada vi torcidas e torcedores/as que realmente amavam seus times, incentivava os jogadores, faziam festa nas arquibancadas e motivavam os demais torcedores.

Sou do tempo da Charanga do Jaime levando a torcida do Flamengo no embalo. De Porphyrio da Paz, Manuel Raimundo Paes de Almeida comandando a bandinha no centro das cadeiras descobertas do Pacaembu. Do Tatã com suas muletas, caminhando do Pacaembu ao Parque São Jorge após a conquista do título paulista do IV Centenário, em 1954, chegando lá com seu corpo coberto de sangue. Da Eliza, que comandava e domava os fieis antes de se tornarem Gaviões. Do Chico Mendes, este sim o criador do grito “Vai, Corinthians”.

Sou do tempo da Filinha, uma verdadeira lady, do Mário, deficiente físico e mental, que fazia chorar jogadores e torcedores do São Paulo com seus gritos difíceis de se entender. Do João Gaveta, que tinha problemas parecidos com os do Mário e que, por amor ao Palmeiras, achava que todo juiz era ladrão – estava na gaveta – se o Periquito não vencia. Do capitão Nicola, patenteado de verdade, que podia apontar o dedo para Jorginho, chamá-lo de “falso brilhante”, e ninguém se aborrecer. Da Dulce, no Vasco, da Conceição, na Ponte Preta. Senhoras adoráveis que tratavam – e tratam – os jogadores como filhos, dando-se ao direito de elogiá-los, abraçá-los ou espinafrá-los.

Essa banda podre começou quando alguns cartolas – que nem merecem ser citados – a financiava, até, acreditem, para vaiar o time, visando, eles, as eleições em seus clubes. Essa banda podre surgiu quando começaram a dar a eles ingressos, para que usassem ou vendessem, recheando seus bolsos. Quando passaram a financiar ônibus para que acompanhassem o time em jogos fora da Capital. Quando viram funcionários serem agredidos – porque o ônibus atrasou – e não denunciaram os agressores. Quando viram vândalos por eles sustentados quebrarem sala de troféus, história de conquistas, e fingir que estava tudo certo.

Criaram alguns monstros que dominam uma grande massa de, muitos deles, inocentes. Criaram, sustentam e hoje são reféns deles. Tem até que, em um certo clube, os incentivam para que pressionem os jogadores, ao limite dos cascudos, para que corram mais, quando o time dá uma bambeada. Aceitar pressões e levar os “líderes” para que se reúnam com comissão técnica e jogadores, é até corriqueiro. Não tem nem um mês que o emperdigado São Paulo agiu assim.

Erraram e não tem volta? Criaram monstros e não sabem como eliminá-los ou, melhor, enquadrá-los? E assim mesmo, porque até a Polícia Militar e o Ministério Público não deram jeito, e insistem em torcidas únicas nos tais clássicos? Têm medo de que sem as tais uniformizadas falte público nos estádios? Penso que não.

E alguns bons exemplos estão aqui em São Paulo nesse exato momento. Deram acomodações decentes, de primeira, e a torcida corintiana responde com excelente média de público. Os preços dos ingressos são salgados, mas quase não se ouve reclamação. Dizem que elitizaram, pelos preços, é verdade, mas nem por isso os demais se afastaram. Estão, isto sim, silenciosamente sendo “enquadrados” pela “nova classe de torcedores”, que não aceita ver o estádio ser detonado e diminuir o conforto que a atrai. O bom atrai o ruim e o melhora. Logo poderão cobrar preços mais apropriados para o bolso brasileiro.

Da mesma forma que no Corinthians, a torcida do Palmeiras formada por sócios torcedores – nada ver com a Mancha e a TUP – também quer preservar o belo patrimônio. Sabe que deve gritar, criticar, xingar, mas não deve quebrar cadeiras se o time perder, não cumprir o que cartolas prometeram. Falta o Santos encontrar sua fórmula. E quem tiver bom pauteiro, logo vai descobrir o grupo de torcedores – da zona Sul – que vem trabalhando para dessa forma reerguer a Lusa. Busquem.

Mas, o maior exemplo está no São Paulo. Por diversos fatores. Falam bastante dos preços mais baratos para os ingressos. Para mim, o mais importante está na “descoberta” que os torcedores – esqueça as uniformizadas – fizeram, de que é melhor apoiar, empurrar o time para fora da zona de rebaixamento, salvando-o da queda agora, do que passar um ano tentando puxá-lo para cima novamente. Como tiveram de fazer corintianos, uma vez, e palmeirenses, duas. Mais Vasco, Botafogo, Grêmio e agora Internacional.

Sim, na média superior a 34 mil pagantes – com picos de 63, estão os torcedores uniformizados. A Independente, a Real… mas não é delas o domínio. Não vem de trás do gol de fundo, no Morumbi, onde se colocam, o apoio, o incentivo maior. Este está vindo de todo o resto do estádio. Sem brigas e até sem batuque. Aquelas uniformizadas que, com suas brigas, atos de selvageria espantava os torcedores “normais”, agora é que, se quiserem, terão de se acomodar com a nova maioria. Terão que se educar.

Para que a nova realidade se imponha, será preciso que a diretoria entenda a mudança. E faça a parte dela. Não desprezar, mas também não temer as uniformizadas. Fazê-las entender que as quer incentivando – mesmo que seja, quando preciso, vaiando – mas não depredando, brigando, matando, para espantar os demais. E, muito importante também, não crescer os olhos, tentando aumentar demasiadamente os preços dos ingressos, quando voltar a ter um time de verdade, vencedor. No mais, se tiver alguém de boa cabeça no seu meio – espera-se que sim -, encontrar uma fórmula de agradecer a essa torcida, antes exigente e acomodada, agora presente. Pelo que vem ensinando.

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6 comentários em: “Que a diretoria do São Paulo não deixe o bonde passar

    1. Obrigado. Mesmo os incovenientes, vândalos, se inibem quando estão em local de bom nível. Além de serem vigiados..rrs

  1. Concordo, mestre! O duro é que muitas vezes essas organizadas não permitem que surjam outros movimentos novos, “democráticos”, que visam simplesmente enfeitar os estádios. É como se entendessem que têm reserva de mercado…

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