Sobre a temerária supremacia do internauta, para além do caso Sidão

Créditos da imagem: Reprodução ESPN Brasil

Patrão internauta

Como magistrado, sou pago para tomar decisões. Posso cometer erros. Posso ter posicionamentos diversos de quem julgar os recursos. Posso proferir sentenças que não contenham erros, nem sejam modificadas em recurso, mas não agradem uma grande quantidade de pessoas. Seja o que for, a tarefa é minha. Não por vaidade, mas por constar no edital de concurso. Não posso delegar o dever a terceiros, abrindo uma enquete na internet. Assim como um médico não pode perguntar ao amigo internauta que remédio dar ao paciente. Ou um engenheiro usar a rede social como base de um projeto. Por que com um comentarista esportivo pode ser diferente?

Em nenhum lugar do mundo as transmissões dão tanto peso ao destinatário. É interatividade o tempo todo. Enquetes são lançadas de cinco em cinco minutos. Quem é melhor jogando de meia azul com bolinhas amarelas? O centroavante do Cajamanga FC deve ir pra seleção? Como se o resultado tivesse algum valor de amostragem. Cria-se um tipo de espectador que não procura a informação ou a opinião. Ele é que pretende informar ou opinar. Começa o jogo e está na frente do sofá, com o celular a tiracolo. Tem que clicar na enquete ou mandar um twitt que chame a atenção, nem que seja para chamar quem fez três gols de fraude. Mais tarde, entrará nos sites e blogs para votar em outras enquetes e proferir seus comentários. Normalmente, sem prestar atenção na coluna ou matéria. Estes são meros hospedeiros de um parasita com teclado.

Não sei se este ânimo de aparecer foi o caso dos internautas que consagraram Sidão contra o Santos – num jogo em que trocou os pés pelas mãos, ou vice-versa. Acredito que quiseram tirar sarro, mesmo. Não só do goleiro, mas do moto-rádio* interativo. Só que o bom editor ou o diretor aprende com a gozação. O ruim não faz autocrítica e compromete seu veículo. Na cadeia de envolvidos, era suficiente que um deles se opusesse à entrega do prêmio. Poderiam ter sido Luiz Roberto, Roger Machado e Casagrande – que, depois, resolveu deixar claro que o trio foi contra a medida, mas terminou vencido. Deveria ter sido quem estava acima deles. Bastava dizer “entendemos o espírito jocoso do telespectador e, por motivos mais que óbvios, não entregaremos a premiação”. Prefeririam ampliar a humilhação que o goleiro já causara a si mesmo.

Se algo pode ser extraído do ridículo de tal episódio, seria rever os poderes do “super-internauta”. A Rede Globo anunciou que os integrantes da transmissão passam a ter votos com peso igual ao da enquete. Poderia ir além. Não apenas a Globo, como o universo da comunicação brasileira. A começar por reduzir o número de enquetes e leituras de postagens durante as partidas e programas. Veículos escritos poderiam criar limites aos comentários. Questão educativa de recondicionar a ver e ouvir, antes de falar e escrever. Não é sempre que acontece, mas uma transmissão pode ter passagem melhor que Casagrande colocando outro na sua seleção de quinhentos atletas. Uma coluna pode trazer algo diferente de “fulano será uma ótima se fizer 30 % do que fez há dez anos”. Mas, para saber disso, tem que ir além do próprio umbigo.

Não é que a opinião do público não seja importante – seja mesmo do público ou de uma parcela de fissurados. Ela não deve ser determinante. Nem a informação é um show, muito menos a estrela da companhia pode ser o (des)informado. No jornalismo, o cliente não tem sempre razão. Ou então, num mundo em que cada um cria a verdade que quiser, deixa de haver razão para o jornalismo existir.

*prêmio que emissoras de rádio davam ao melhor da jornada. Reza a lenda que um jogador disse que daria o rádio à mãe e ficaria com a moto…

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