Já diziam os Titãs – Jesus não tem dentes…

Créditos da imagem: Marcelo Cortes / Flamengo

Confirmada a saída de Jorge Jesus do Flamengo, começa o festival de palavras de ordem contra o treinador. Desde “nunca foi tudo isso” até o esperado “desrespeito à grandeza do Flamengo e do futebol brasileiro”. Menos, muito menos. Deixar o Brasil por uma oportunidade no exterior, ainda mais em sua terra, é nada mais que lógica. Talvez não haja pior momento na História para alguém, tendo a chance de viver bem fora do país, preferir a permanência. No eterno país do futuro, o presente de passados repetidos é um convite ao aeroporto.

Vamos encarar: o Brasil cansa. Um dos piores no combate à pandemia de Covid-19. Mostrou um talento insuperável para perder tempo com idiotices como “isolamento vertical” e cloroquina, fora o sem-número de vídeos e dados distorcidos que fizeram a alegria (?) das redes sociais. Uma população que aprendeu a assimilar tudo o que não devia. Mortes no trânsito? Vê aquele Twitter que avisa como fugir da blitz. Dengue? É uma barra, mas os outros que cuidem da água parada. Meio país sem saneamento básico? Tem celular com internet, então tá certo. Convencionou-se festejar “essa gente sofrida que luta, apanha, mas é feliz!”. Bobo alegre e feliz são conceitos completamente diversos, amigo. Falando em amigo, é enervante o a forma com que amizade e parentesco justificam tudo. Como se até a Bíblia não mostrasse que ter mais de onze amigos pode ser roubada.

Até a pandemia, Jorge Jesus ainda era parte do rol que podia aproveitar as coisas boas e se proteger – a maior parte do tempo – das agruras do Rio de Janeiro. Mas a Covid-19 é diferente. Não que não venha matando mais pobres, só que os ricos também choram. E o que os jornais mostram sobre a luta contra a doença? Roubalheira na compra de aparelhos, roubalheira na construção de hospitais de campanha, governador sob risco de impeachment, prefeito liberando geral, etc… Enquanto isso, seu próprio clube está mais preocupado em levar vantagem, ligando-se ao governo cujo negacionismo potencializa os riscos. Por que, ora pois, deveria ficar? Jesus sabe que ganhou o que poderia. Faltou o Mundial? Oras, a esta altura nem se sabe quando – e se – haverá o Mundial. Sendo que, provavelmente, no máximo voltaria dizendo que jogou – e perdeu – de igual pra igual.

Jorge Jesus prestou um serviço inestimável ao futebol brasileiro. A forma como alavancou o desempenho coletivo do Flamengo (consequentemente, o individual) foi fulminante e requereu poucos treinos. Um constrangimento aos técnicos nacionais e seus passadores de pano na imprensa. Houve tempo para que os desafetos tentassem transformar um mais-do-mesmo como Odair Helmann em vingador da brasilidade. Mesmo com o Flamengo em segunda marcha, não deu sequer para o Fluminense beliscar uma vitória. Apenas uma “derrota triunfal” no primeiro jogo da decisão. Bons tempos – ou menos ruins – aqueles em que campeão moral não perdia. A postura do técnico, porém, já era outra. A aventura perdeu a graça. Portugal é um dos países que melhor vêm lidando com a pandemia. O Brasil está no Z4. Se houvesse rebaixamento para outro planeta, era “nóis”.

Por mais que boçais da crônica esportiva tentem ver uma oportunidade para a “remediocrização”, ver de perto um trabalho de alto padrão imunizou o cérebro de boa parte de quem acompanha futebol no Brasil. Resta saber quem arriscará seus dentes no país dos banguelas. Jesus não topou mais.

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