Sobre Raí e a quase tragédia com Biro Biro

Créditos da imagem: Reprodução SPFC

Pede pra sair!

Raí não pegou o telefone para se oferecer à CBF. Isso é mais uma invenção de Sanchez – aquele que anuncia a iminência do Naming Rights da Arena Corinthians e sempre tem um jornalista acreditando. Mas Raí deveria pegar o telefone agora. Para se oferecer a quem quer que seja. Não sem antes se demitir do São Paulo, por reincidência num dos piores atos de um dirigente profissional: falta de transparência. O caso Biro Biro escancara que, fora de campo, trata-se de um ídolo que não merece a menor confiança do torcedor. Na melhor das hipóteses, um embuste.

Não é a primeira vez que escrevo sobre a performance, como gestor, daquele que disputa o status de maior ídolo do São Paulo com o não menos mítico Rogério Ceni. Acreditava que Raí teria, ao menos, uma conduta correta – mesmo que equivocada no mérito das decisões. Isso no começo de 2018. O que veio a seguir não permitiu, desde muito cedo, manter a boa vontade. Não esperava que disfarçasse situações nada convenientes, como esconder que o ex-sócio Fábio Mello recebeu comissão pela vinda de Diego Souza – que sequer era seu cliente. Um ano mais tarde, o público (não apenas tricolor) foi novamente privado de toda a verdade que, pois sim, seria indispensável neste tipo de caso. Não é irregular contratar um jogador com procedimento cardíaco prévio. O mesmo não se pode dizer quanto a não informar tal procedimento.

Pesquisei as notícias sobre a contratação de Biro Biro pelo São Paulo. Em nenhuma delas houve menção ao tratamento para corrigir arritmia cardíaca constatada na China. Menção que seria indispensável. Primeiro, porque o torcedor merece saber todos os dados relevantes ao desempenho. Ainda mais um problema cuja eficiência da solução não poderia ser assegurada na plenitude, porque ele pouco treinou e jogou depois. Foram apenas duas partidas no segundo semestre de 2018. Uma em julho e outra em outubro. No SPFC, estreou bem depois dos outros e chegou a ser retirado de uma relação por “mal-estar”. Ficou mais diversas partidas fora, atribuindo-se a ausência a problema de saúde em estudos. Até, finalmente, ser repassado ao Botafogo. Onde, como já devem saber, teve uma parada cardíaca durante treino e, felizmente, foi reanimado com sucesso.

Não se trata, porém, apenas de uma questão moral. É também uma possível fonte de punições administrativas – no mínimo. Em 2004, o São Caetano foi punido por não informar plenamente o problema do falecido – em campo – Serginho. Disputava as primeiras posições e terminou quase rebaixado. O São Paulo, adversário na fatalidade, sabia deste precedente. Ocorresse uma tragédia, poderia perder pontos por cada atuação sua. Isso explica as tantas semanas sem jogar, em comparação aos demais do elenco. Não é crível que, com tantos escalados no sacrifício (o que gerou polêmica por Arboleda), houvesse tanto cuidado com apenas um, sem motivo extraordinário. Assim como foi extraordinário que, tão compreensivo com contratados, o clube já repassasse o atleta. Peculiaridades e coincidências demais para são-paulinos cada vez mais desconfiados – por razões óbvias.

A sequência de temeridades parece ter prosseguido no Botafogo e por pouco não ganhou contorno fúnebre. Mas esta coluna trata da conduta do São Paulo por seu diretor. Raí omitiu dado preocupante. Seja para não ter a contratação questionada em sua utilidade, seja para não desvalorizar o atleta. Numa fase em que até uma troca de lâmpadas dá dores-de-cabeça ao “diferenciado” tricampeão mundial, a revelação do omitido não deveria trazer efeito que não o desligamento imediato do diretor. Falar de Raí sempre me trazia satisfação. Hoje, o sentimento é cada vez mais próximo de nojo. Já deu. Passou dos limites da paciência e da ética. Que encontre outros desavisados para enganar com a cara de bom moço.

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