Treinadores Europeus no Brasil: o problema não é o dinheiro

Créditos da imagem: Reprodução / Visão de Mercado

Com o sucesso de Jorge Jesus e Sampaoli no futebol brasileiro, a onda agora é pedir treinador estrangeiro nos nossos clubes. Faz parte dos modismos, ainda que nestes casos os modismos sejam tecnicamente justificados graças ao futebol que Flamengo e Santos apresentam.

Pedir é fácil. Outro dia fui a uma concessionária de carros perto de casa e pedi uma Ferrari. Obviamente, quando veio o preço lembrei do saldo na conta-corrente, agradeci, e abasteci o bilhete único, que aqui em Milão custa € 28,00 por mês e dá direito a usar todos os transportes públicos sem limite de tempo ou viagens. Compatível com minha renda.

O torcedor pode pedir o que quiser, mas será que nossos clubes têm condição de pagar por isso? Pensando na frustrada tentativa de comprar a Ferrari, fui pesquisar quanto ganham os treinadores das 5 maiores ligas europeias para avaliar se é possível que clubes brasileiros os contratem. Obviamente, tive que definir alguns critérios, algumas notas de corte. Afinal, é mais que óbvio que não dá para pensar em contratar Guardiola (€ 20 milhões anuais), Klopp (€ 7,5 milhões anuais) e nenhum treinador de ponta. Então, o critério foi pegar os treinadores dos clubes que estão entre 11º e 15º de cada liga.

A escolha desses clubes está baseada na questão financeira. Se considerarmos que os mais ricos estão nas primeiras posições, e que nossas receitas deveriam ser compatíveis com clubes intermediários das maiores ligas, então nada mais justo que avaliar quanto pagam esses clubes pelo trabalho de seus treinadores. E vocês verão que nesta temporada há clubes ricos nessa segunda página da classificação.

A partir da amostra comparei esses dados com a suposta remuneração de Jorge Jesus e Sampaoli, obtida via reportagens da imprensa brasileira. Mas antes de chegar a esses números, vamos analisar como estão distribuídos os treinadores das 5 maiores ligas considerando sua nacionalidade.

Falamos de 96 treinadores de Premier League, Serie A, LaLiga, Bundesliga e Ligue 1. Nos Outros encontramos um americano, um camaronês e até um armênio, além de um chileno. Da América Latina temos 4 representantes: 2 argentinos, 1 chileno e 1 mexicano. Não existe, portanto, demanda por outros latinos e este não é um problema que atinge apenas treinadores brasileiros. Se considerarmos que os argentinos são ex-atletas de longa atuação na Europa (Simeone e Pochettino), isso mostra que a demanda por profissionais exclusivamente treinadores é baixíssima. O último brasileiro a tentar a sorte foi Sylvinho, já demitido pelo Lyon após 8 rodadas do atual campeonato francês.

Mas vamos ampliar um pouco a análise e detalhá-la ao nível das ligas. Encontraremos situações interessantes:

Se na distribuição total há predominância de espanhóis e italianos, no detalhe das ligas vemos ambos se concentram em suas próprias ligas. No caso dos italianos, reconhecidos como fortes detentores de conhecimentos táticos, atualmente estão restritos à Serie A. Ainda que na lista estejam Sarri, Conti e Ancelotti, treinadores que já dirigiram equipes vencedores em outros países, além de Mancini, atual treinador da Seleção. Dos grandes nomes italianos ainda há Max Allegri, ex-treinador da Juventus e que é comentado em vários clubes.

No caso dos espanhóis vemos que os clubes da LaLIga dão prioridade aos treinadores locais, mas também os ingleses dão bastante espaço para treinadores da terra de Pep Guardiola. Além dele há outros 3 em atuação na principal liga de futebol do mundo.

Inclusive, veja que interessante: a Premier League é a liga que em a maior diversidade de treinadores por nacionalidade. Ainda que haja uma quantidade grande de britânicos, a maioria vem de fora da terra dos Beatles. Não é só dentro de campo que o dinheiro é capaz de montar grandes esquadras, mas também no entorno dele há uma demanda por quem faz os grandes elencos jogarem. Ainda que possamos discutir a efetividade de alguns nomes nesta temporada, como Pochettino e Solskajer.

Outra liga que trabalha bem a presença de treinadores estrangeiros é a Bundesliga, que tem metade de suas equipes treinadas por treinadores de fora do país. Se bem que nessa turma de estrangeiros vemos uma predominância de austríacos, suíços e holandeses, o que mostra certa predileção por quem fala a mesma língua ou algo próximo do alemão.

Na França, apesar de termos apenas Zidane como francês fora de seu país de origem, os treinadores locais são privilegiados na Ligue 1, compondo a grande maioria dos profissionais fora de campo.

Dessa forma, temos as seguintes distribuições por liga:

Então, após esta caracterização do quadro de treinadores, notamos que a depender dos conceitos e culturas esportivas de cada país temos uma maior ou menor diversidade de treinadores estrangeiros, mesmo num mundo onde a transferência de pessoas é bastante livre. Não é à toa que a Premier League é a liga mais global atualmente, e isto se mostra fora de campo também. Justifica, inclusive, a mudança na prática da forma de jogo dos clubes, resultado de tantas novas influências.

A Serie A e a LaLiga ainda se prendem mais às suas tradições de jogo. Independente de apresentarem evoluções, o jogo na Itália continua extremamente tático, estudado, com ideia inicialmente de organização defensiva e posteriormente de movimentação ofensiva. Na Espanha ainda se pratica o jogo mais cadenciado, de passes e de busca por fluidez, sem tanta marcação alta.

Enquanto isso, na França os treinadores locais são reconhecidos por trabalhar bem a formação de atletas, e não é à toa que a chamada da Ligue 1 é “A liga dos futuros craques”, inclusive porque a idade média dos atletas tem caído. Enquanto isso os alemães são menos abertos a influências, e quando vem é comedida, com treinadores de perfil próximo, culturalmente falando.

E os portugueses?

Bem, os compatriotas de Jorge Jesus são poucos nas 5 grandes ligas. Há 3 na França, o que se justifica pelo mesmo motivo de serem treinadores semelhantes aos franceses, com forte característica de formação; 2 na Inglaterra e 1 na Serie A (ele é angolano com cidadania portuguesa).

Ou seja, não temos uma quantidade grande de treinadores portugueses nem mesmo espanhóis nas grandes ligas, exceto os espanhóis da própria LaLiga. Isso diz muita coisa sobre o perfil tático e as expectativas que os mundo das grandes ligas tem sobre treinadores portugueses e espanhóis.

Vamos então à análise de salários dos treinadores:

Na relação há nomes conhecidos de clubes ricos, como o caso de Pochettino e seu Tottenham que não vai bem na Premier League nesta temporada. Os valores já estão transformados em Reais recebidos mensalmente. Ou seja, por exemplo, Paco Lopez do Levante recebe, de forma estimada pela imprensa, R$ 700 mil mensais.

Claro que o custo total do treinador e da comissão que o acompanha não é apenas esse. Mas para a grande maioria dos treinadores brasileiros também há custos de moradia e de comissões, que podem ser pequenas (1 auxiliar) e enormes (5 ou 6 auxiliares). Mas aqui é uma referência.

Já dá para ver que o salário médio na Premier League é bastante superior ao das demais ligas, ao mesmo tempo que a Bundesliga tem a menor média. Na França há algumas disparidades, mas os salários não chegam a assustar, enquanto na Itália e na Espanha a média é mais alta e a dispersão também.

Colocaremos agora lado a lado esses treinadores e os dois estrangeiros famosos que estão no Brasil.

O que é possível depreender deste gráfico é que excluindo nomes conhecidos e de clubes ricos, como os casos dos 3 primeiros clubes que disputam a Premier League, nos demais casos os valores pagos a treinadores que ocupam posições intermediárias de classificação na Europa estão bastante próximo ou mesmo bem abaixo do que recebem Sampaoli e Jorge Jesus.

Não é uma questão de comparar capacidade ou dizer se os estrangeiros que estão no Brasil são melhores ou piores, nem mesmo se são caros ou baratos. Mas tomando a carreira deles na Europa, vemos que Sampaoli treinou o Sevilla por uma temporada deixando a equipe posicionada na zona de Champions League, terminando a temporada 16/17 na 4ª posição.
Mesmo Jorge Jesus e seu trabalho “revolucionário” no Brasil treinou apenas clubes portugueses, com sucesso e títulos.
Não é uma questão de diminuir ninguém, apenas de colocar tudo sob a mesma perspectiva.

No fim, analisando sob a ótica meramente financeira, sim é possível buscar treinadores europeus. Para clubes equilibrados e que tenham a vontade de buscar alternativas táticas, dando material, tempo e estrutura, os valores de investimento não parecem estar substancialmente acima do que se pratica no Brasil. Se há condição financeira, talvez o que falte seja condições estruturais e de gestão, fora de campo, especialmente de saber quem e porque contratar um europeu. Para clubes que montam elencos desencontrados das ideias de treinadores brasileiros, fazer isso com um estrangeiro é apenas jogar mais dinheiro fora, e a manutenção da máxima de que “quem não sabe onde ir, nunca está perdido”.

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