Vingança do quê? De quem? Revisitando a infâmia de Rosário

Créditos da imagem: Montagem / No Ângulo

Interessante a lembrança da Copa de 1978 por conta da decisão da Copa América. Mostra que o país nunca esqueceu um dos episódios mais nebulosos, que culminou com a constrangedora declaração, pelo saudoso Cláudio Coutinho (mais pelo trabalho no Flamengo que pela seleção), de que o Brasil fora “campeã moral” na Argentina. Motivo: acabou sendo o único invicto da competição – a campeã perdeu um jogo na primeira fase, para a Itália. O jogo da discórdia foi a partida que nos tirou da final. A Argentina entrou em campo sabendo que precisava bater o Peru por 4 a 0. Fez 6. Um placar de tênis que deixou a seleção peruana sob suspeita eterna. Teria sido mais que uma jornada desastrosa? É o que me proponho a responder.

Pré-jogo – antes de começarmos, temos que recordar alguns pontos para melhor compreensão dos fatos:

1 – as edições de 1974 e 1978 não tiveram quartas-de-final e semifinais. 8 seleções se dividiam em 2 grupos de 4. O vencedor de cada grupo ia à final. Os segundos colocados disputavam o terceiro lugar. Este sistema tinha uma grave falha de competitividade. Era perfeitamente possível que seleções chegassem à rodada final sem chance de nada, enfrentando equipes ainda com pretensões. Um choque de ânimos capaz de produzir resultados atípicos.

2 – a seleção peruana vinha sendo a quarta força, quando não a terceira, da América do Sul em Copas do Mundo. Em 1970, após deixar a Argentina em casa, os peruanos só pararam nas quartas-de-final, contra a seleção brasileira. Um 4 a 2 movimentado, com dois goleiros muito a fim de ampliar as emoções da partida. Em 1978, o Peru fechou a primeira fase em primeiro, numa chave que tinha a vice-campeã Holanda. Duas vitórias (Escócia e Irã) e um empate contra os holandeses.

3 – apesar do início animador, a segunda fase já vinha sendo uma desilusão completa. Começou perdendo para o Brasil por 3 a 0 e, enquanto brasileiros e argentinos se arrebentavam em Rosário (0 a 0), tomava outro revés contra a Polônia. Enfrentaria a Argentina com 4 gols sofridos e nenhum a favor.

4 – em tabela previamente definida, a dona da casa ganhou o benefício de fazer o último jogo do grupo. Chegando à rodada final com os mesmos pontos que o Brasil, entraria em campo sabendo o placar necessário. No caso, 4 a 0, após a vitória brasileira por 3 a 1 contra a Polônia.

90 traumáticos minutos – este era o cenário. A Argentina tinha que golear uma equipe já eliminada. De um lado, o doping emocional da torcida e superconcentração dos envolvidos. De outro, muita vontade de pegar logo o avião para Lima. A História do futebol traz resultados anormais em segundas partidas de mata-mata, como o Barcelona mostrou de um lado e de outro. Isso com as duas equipes interessadas no placar. Quando tanto fez e tanto faz para uma delas, a anormalidade ganha tons menos surpreendentes. Seria o suficiente para explicar o pneu aplicado em Rosário? Ou teria havido um ingrediente extra e escuso?

Fomentam as teses conspiratórias alguns fundamentos discutíveis. Primeiro, acusações de que uma troca de presos políticos entre os regimes ditatoriais de Peru e Argentina incluiria o compromisso de os peruanos entregarem o jogo. Ocorre que esta acusação foi feita por um líder oposicionista da época, na base do ouvi dizer. Nada assegura, portanto, a veracidade do alegado. A segunda suposta prova seria o fato de o goleiro Quiroga ter nascido na Argentina. Algo como, num fictício confronto entre Brasil e Argentina na Copa Davis dos anos 1990, acusar o tenista Fernando Meligeni de entregar o ouro à terra “natal”. Menos, bem menos. Também surgem, volta e meia, notícias de um jogador acusando o outro ou pedidos de desculpas. Quando se confere, geralmente constatam que houve mais adjetivação do que conteúdo na matéria – algo bem comum nos dias atuais.

Neste contexto, devo dizer que decidi encontrar um vídeo com a partida e assisti-lo. Foi antes da Copa da Rússia, para uma eventual coluna que acabei descartando, por haver outros temas a tratar. Mas agora posso dizer minhas impressões. Primeiramente, não foi fácil ver o jogo porque, por algum tipo de proteção, só era possível assistir com o celular em diagonal. Mas assim o fiz, bravamente. E o que conferi foi uma partida sem traços suspeitos. Inclusive, o Peru ameaçou o gol argentino quando o placar ainda era zerado. Com dois gols antes do intervalo, porém, os peruanos capitularam. A Argentina voltou com tudo e logo fez o quarto tento que a garantia na decisão. Humilhados, os peruanos perderam o ânimo que restava e tomaram mais dois. Um vexame total, pois sim. Mas, no terreno da moralidade, nada além disso.

Conclusão – sem indícios de conduta trapaceira em campo, nem tampouco provas concretas de conchavo fora dele, não posso deixar de conceder o benefício da dúvida ao Peru em termos de dolo. Foi uma postura lamentável em campo, mas condizente com o desapontamento prévio em consonância com as aspirações do adversário. Por outro lado, a concepção da tabela merece todas as desconfianças. Ainda que isso fosse pouco controlado (e seguiria não sendo quatro anos depois, para deleite de alemães e austríacos), o mínimo de senso esportivo bastaria para modificar o horário da partida brasileira, tornando-a concomitante à da Argentina. O que poderia atenuar a estranheza seria o seguinte: não havia televisão a cabo e seria possível, em tese, que as emissoras não aceitassem as disputas simultâneas. Entretanto, até hoje não li nada sobre este ter sido o motivo. O cheiro ruim continua.

De todo modo, o Peru não teria nada a ver com esta questão da tabela e a vergonha, dolosa ou não, iniciou um processo decadencial que, em dez anos, rebaixou o país no futebol de seu continente. Como ápice da desgraça, houve o acidente aéreo que sepultou o campeão nacional, Alianza, em 1987. A perda de nomes importantes e a sombra de 1978 deixaram o futebol peruano para trás de Colômbia, Paraguai e Chile. Depois de uma pálida presença em 1982, só voltaram à Copa do Mundo ano passado. Com a decisão de agora, não deixa uma volta aos dias promissores do passado. Quando Rosário nem estava no mapa do país.

Ou seja: vendidos ou sem fibra, podemos dizer que os peruanos já comeram o pão que el diablo amassou. Não há necessidade de remoer mágoas. O final da Copa da Argentina foi desagradável em vários aspectos (incluindo a vencedora), mas já passou. A seleção brasileira ganhou duas Copas depois disso. Sendo que as perdidas não tiveram nem título moral, nem qualquer outra desculpa. Se precisar deste tipo de motivação para vencer domingo, é porque o maior campeão da História do futebol se apequenou, mesmo. Saiamos dessa.

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