Sobre um clichê (de boa fé, inclusive) que vem sendo dito sobre técnicos inovadores no futebol nacional

Créditos da imagem: Gazeta Esportiva

A luta contra o atraso tático não envolve desculpas para os inovadores derrotados

Antes de começar, como se trata de uma das últimas colunas do ano, sugiro três resoluções aos eventuais leitores:

1 – se esperam comentários no estilo “pode ser uma boa”, sem maiores observações, não leiam minhas colunas. Colunista não é animador de auditório e passou da hora de desconfiarem de quem faz isso seguidamente.

2 – se procuram textos apenas para servir de ponte para suas próprias opiniões em comentários, não leiam minhas colunas. Especialmente no caso de sequer lerem com atenção.

3 – se procuram um colunista que fale exatamente o que acham, não leiam colunas de ninguém. Colunista também não é espelho intelectual.

Dito isso, vamos a um assunto que considero dúbio, que é dizer que “seria muito bom para o futebol brasileiro que técnicos como Jorge Sampaoli, Rogério Ceni e Fernando Diniz façam sucesso”. Trata-se de uma assertiva superficialmente verdadeira, mas que encobre uma indulgência (consciente ou não) a fracassos anteriores. Não apenas deles, como de outros que fogem ao padrão. Fica subentendido que, normalmente, os dirigentes e clubes é que pecaram por imediatismo, falta de estrutura e outros fatores. É o primeiro passo para que venham mais frustrações – e mais “a culpa é dos outros”.

Vou começar por Fernando Diniz. Durante o ano publiquei uma coluna criticando a superficialidade de seus métodos e treinos. Recebi até aulas inconformadas, mas sem responderem especificamente às minhas observações – como a falta de uma marcação forte, a saída de bola que tirava o impedimento e o toque amestrado que qualquer adversário interceptava com quinze minutos. Isso num clube que lhe deu meses quase só treinando e foi para o meio do ano na zona de rebaixamento. Como dizer que o CAP não teve paciência e não deu estrutura? Sem contar que, por mais que os atletas educadamente (induzidos por perguntas) digam que ele foi importante, o mesmo quase-rebaixado terminou a temporada campeão da Sul-americana, com um treinador que não manteve o estilo e ainda acrescentou o que faltava ao time com Diniz – especialmente na marcação imediata.

Tal como Diniz, Rogério Ceni foi personagem, em 2017, de uma empreitada que deixou o SPFC à beira do desastre. Por causa da ótima campanha de 2018, sendo campeão da série B com um recém-promovido Fortaleza, tenta-se recontar a História no tricolor paulista. Até pelo excesso de expectativa, Rogério patinou em muitas ideias, não raro as sabotando com a própria ansiedade. O SPFC não defendia bem e o ataque logo perdeu força na medida em que o adversário se posicionou apropriadamente. Sem corrigir estas lacunas perigosas, Rogério foi demitido da mesma forma como o Real Madrid sacou o mico Lopetegui. Os resultados no clube cearense sugerem um aperfeiçoamento que valerá a pena ser visto em 2019. Mas há que se ressaltar que é quase outro jogo. Mesmo decadente, a série A é muito melhor que a B – até porque esta decai mais ainda. Rogério tem muito a desenvolver – e, pois sim, provar.

Sampaoli é diferente porque já representou uma mudança crucial para o país em que mais trabalhou. Ele e seu mentor Bielsa significaram, para o futebol chileno, um avanço de uns trinta anos. Quem via os times do Chile há dez anos voltava aos anos 80 – ou 70. Foi um casamento feliz de método e necessidades. Porém, é muito curioso que tanto mestre quanto pupilo deixaram o futebol chileno atrás de variações que deram com os burros n’água. Bielsa virou um revolucionário que só perde, cumulando brigas e demissões em times menores. Sampaoli esgotou o Sevilla após bom começo e terminou de desestruturar a Argentina. Mudava de esquema e convocações como se fosse um torcedor desesperado. Foi à lona por culpa própria. “Ah, mas a geração era derrotada, Messi e Mascherano mandaram no time, etc…”. Não que não houvesse seríssimos problemas, mas Sampaoli apenas jogou gasolina na fogueira.

Neste contexto, estes e outros técnicos (com ou sem trunfos anteriores) realmente podem representar uma abertura de leques da qual nosso futebol precisa. As mudanças pós-2014 empacaram em incompetências. Mesmo o Palmeiras foi campeão ao desistir das tentativas de Roger Machado (outro da turma do “seria muito bom se…”) e voltar aos dois volantes. Enquanto os inovadores não acertam seus métodos, os ortodoxos atualizados levam a melhor. É preciso mesmo haver mais antíteses de sucesso como Renato Gaúcho. Só que oportunidades devem ser conquistadas, não simplesmente ganhas. Nem todos fazem, hoje, por merecer novas chances. Se quiserem aproveitá-las, primeiro terão que entender o porquê.

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