50 anos do “gol 1000” – sobre o “golaço” ignorado de Pelé

Créditos da imagem: Reprodução ESPN

Amanhã, 19/11, completará 50 anos que Pelé, o maior de todos em todos os tempos, marcou seu milésimo gol. Mil gols, marca que poucos alcançaram. E ele foi além.

Uniforme santista na última rodada

No último sábado, 16/11, o Santos, time que Pelé defendeu por quase 20 anos, usou em seu uniforme números e nomes que fizeram parte de uma campanha contra o racismo.

Pelé é personalidade mundial. Está entre os mais conhecidos e famosos, recebido por Papas, reis e rainhas. Pelé é da raça negra e, por mais de mil vezes, foi e tem sido questionado por sempre afirmar que nunca se sentiu segregado. Que é mais uma questão social…

Cada camisa envergada por cada jogador do Santos na partida de sábado, contra o São Paulo, se lia uma informação, estatística em forma de denúncia. A primeira informava que apenas 1% dos negros no Brasil são advogados. Imagino que eu faça parte desse 1%, assim como doutor Jair, irmão de Pelé.

Em outras camisas, foi mostrado que negros estão envolvidos em 59% dos feminicídios. Que são 61% dos presidiários. 64% sofrem com trabalho infantil. 70% das adolescentes engravidadas são também da raça negra. E não para por aí. Segundo a estatística exposta pelo Santos em sua camisa, no sábado, 75% dos homicídios envolvem negros e 85% têm trabalho escravo.

São números alarmantes, que provocam tristeza e que devem revelar uma dura realidade brasileira.

Realidade que talvez -talvez, não, certamente- seria bem menos dura, triste, causadora de vergonha, se naquela noite de 19 de novembro, no Maracanã lotado e aparelhos de televisão e rádios do Brasil e de muitas partes do mundo ligados, tivessem dado a devida atenção ao que disse Pelé após marcar o milésimo gol…

Para refrescar a memória de quem já estava por aqui, jovens de mais de 50 anos de vida, e para informar os que vieram depois e não tiveram a chance de ler e ouvir o que Pelé fez e disse após atingir aquela marca fantástica, aconteceu assim: Quando Pelé atingiu 999 gols, o Santos foi jogar na Paraíba contra o Botafogo local. O milésimo poderia acontecer lá e, por isso, todas as atenções também. Centenas de repórteres, fotógrafos, cinegrafistas do mundo estavam lá. Nada feito. O jogo seguinte foi em Salvador, Bahia, e aumentou a expectativa: a Bahia tem a maior população negra do Brasil. Nada. Tinha mesmo que ser no Maracanã, ainda o maior palco do mundo. E de pênalti. Sim, de pênalti para que a expectativa fosse ainda maior. Todos estivessem atentos e preparados. Ninguém perder aqueles minutos que antecederam a bola na rede do goleiro Andrada, do Vasco, na vitória por 2×1.

Ninguém perdeu o menor detalhe, mas críticos e autoridades perderam a chance de ouvir corretamente o que Pelé disse após pegar a bola no fundo das redes e, erguido nos ombros por alguém, disse ao microfone de todos: Pelé pediu às autoridades, de forma mais espontânea possível, para que cuidassem das crianças do Brasil. Dessem a elas a atenção que mereciam e, mais, necessitavam. Pediu por todas as crianças, mas era fácil entender que pedia mais para os menos favorecidos. Nascidos em berço humilde, de famílias muitas vezes desarrumadas, na sua imensa maioria negros. Negros como ele, mas sem a chance que teve. Um golaço digno de um rei.

Mas o que fez a maior parte dos críticos? O chamaram de demagogo. Disseram que era um discurso estudado, feito em horário impróprio. Estúpidos, não perceberam que aquele era o momento mais propício – porque os olhos e os ouvidos do mundo estavam direcionados para o Maracanã.

E o que fizeram as autoridades? A resposta está nos números estampados nas camisas do Santos, sábado, 50 anos após o alerta de Pelé. Não sou adivinho nem sociólogo, ou coisa do gênero, mas posso garantir que os números seriam muito, muito menores.

Que nesse 19 de novembro, 50 anos depois, reprisem mil vezes as palavras de Pelé após o gol, na esperança de que, comecem agora a fazer alguma coisa nesse sentido. Porque, diz o ditado, “antes tarde do que nunca”.

Parabéns, Pelé, mais uma vez, pelo milésimo gol e pela advertência que bobos consideraram demagogia e surdos se mantiveram surdos.

 

Nota do No Ângulo:

Quarta-feira, dia 20/11, às 16h, será realizado o primeiro “Debate No Ângulo”, evento gratuito em parceria com o Museu do Futebol.

Duas novidades devem mudar o panorama dos clubes brasileiros nos próximos tempos: o Fair Play Financeiro, que a CBF deve instituir a partir do ano que vem, e exigirá uma série de requisitos de equilíbrio financeiro para que os clubes sejam licenciados para os campeonatos; e o Projeto de Lei para Clube Empresa. Essas mudanças não são teorias chatas, elas terão efeito direto no que vemos em campo por causa das políticas de contratações e necessidade de vendas de atletas.

Cesar Grafietti (o economista responsável pelos relatórios financeiros do Itaú BBA sobre os clubes brasileiros, além de consultor contratado pela CBF para o projeto do Fair Play Financeiro) e Rodrigo Capelo (jornalista especializado em finanças do esporte, do SporTV/GloboEsporte.com) apresentarão os projetos e suas consequências, com a participação dos colunistas do No Ângulo no debate.

Fica então o convite a todos que gostam de futebol! E no dia anterior o Museu vai inaugurar a exposição “Pelé Mil Gols”, ou seja, dá para ver a exposição, depois assistir o debate e fazer um passeio completo.

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