A antipatia é amarela

Créditos da imagem: Mowa Press

O jornal Sport, de Barcelona, juntou-se aos críticos dos amistosos da seleção brasileira. Mostrou que o meio-campista Arthur, novamente titular do Barça, viajará vinte e dois mil quilômetros de avião para enfrentar Senegal e Nigéria. O inconformismo não se resume à distância. Abrange as condições climáticas dos confrontos – temperatura superior a 30 º C e umidade de 80%. O jornal também menciona a irritação da imprensa brasileira, destacando que o Campeonato Brasileiro não é interrompido em Datas FIFA. O colunista concorda e acrescenta: não é que estes amistosos não servem para nada. Servem para atrapalhar não apenas clubes, como a própria Seleção. Vejamos:

1 – necessidades técnicas frustradas – o Brasil perdeu de seleções europeias em todos os encontros eliminatórios de Copas do Mundo pós-2002 – além da disputa do bronze em 2014. Cinco jogos, cinco derrotas. Porém, a CBF não faz o menor esforço para enfrentar equipes da Europa. A despeito de estas jogarem eliminatórias de competições continentais, há folgas de rodada que poderiam ser aproveitadas. A CBF prefere seleções americanas – isso no quadriênio que tem duas Copas Américas. Desta vez, até variaram com duas equipes da África. Como se o problema fosse enfrentar africanos…

2 – descanso desperdiçado – sem intercâmbio com seleções europeias, a compensação poderia acontecer na parte física. Como? Deixando de jogar em algumas Datas FIFA. Enquanto os selecionáveis europeus disputam jogos desgastantes entre si, nossos atletas poderiam ficar com semanas a mais de treinos leves. Em tese, chegariam mais inteiros aos jogos realmente importantes – de seus times e da própria seleção. Evidentemente, isso não acontece porque existem contratos vantajosos para CBF e contratantes. O resto que se arrebente – em sentido figurado e literal.

3 – precaução e enfado – esta vale para os jogadores que já conseguiram espaço na Seleção. Psicologicamente, é inevitável que não apenas se poupem, como sintam óbvia desconcentração jogando contra adversários repetidos ou quase repetidos – num dia Honduras, noutro El Salvador, noutro Guatemala. O desempenho tende a ser abaixo do habitual. Mas grande parte da imprensa não quer saber. O Brasil pode bater a Argentina numa Copa América, mas basta um jogo surrado contra Trinidad & Tobago para voltar a ladainha: não tem mais craque, tem que mexer nos intocáveis, etc…

4 – risco pereba – para quem já está na turma, estes jogos mixurucas são o tédio. Para um calouro, são a chance de “se consagrar” batendo em bêbado. Aí os mesmos jornalistas acima defenderão novas convocações (“chega de medalhões!”). Até o dia em que eles sentirem o mesmo enfado em amistosos ou, numa competição de verdade, caírem em desgraça. Tempo e treino perdido com quem nunca teve condições de servir a uma seleção de alto porte, mas conseguiu enganar com superconcentração e adversários camaradas.

5 – raiva profunda – não adianta Galvão insistir que o torcedor quer “se apaixonaaaar” pela Seleção. Há vinte e tantos anos, até se levava – quase – numa boa seu time perder campeonatos porque tinha jogador convocado. Só que os tempos mudaram. Antes seleção era prioridade. Agora o clube vem em primeiro lugar. Perder um atleta por conta de um início de preparação de Copa, ou para jogos de eliminatórias, é desagradável. Para jogar um amistoso, torna-se revoltante. Antes paixão, a Seleção passa a ser estorvo até virar inimiga. E tome votos de “bem feito!” quando se lasca na Copa.

É este conjunto de encheções, fora outras que fogem à memória, que se fará presente em Singapura. Com um novo componente. O aborrecimento, antes nacional, agora contagia outras partes do mundo. Se Arthur se lesionar nas próximas semanas, ou se rastejar na Champions League e no Superclássico, o torcedor madridista vai se apaixonar pela Seleção. Se acontecer com Casemiro, o apaixonado será o catalão. E se forem ambos, a Espanha se unirá em torno de um ideal: mandar Tite ao inferno. Algo como Singapura sem ar condicionado…

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