A mesquinhez da unanimidade contra a final da Libertadores em jogo único

Créditos da imagem: Reprodução / Cassio Zirpoli

Fico realmente admirado ao ver que praticamente todos os jornalistas e “amantes do futebol” criticam impiedosamente a final da Libertadores em jogo único. De maneira contundente, dizem que se trata de macaquear a UEFA em um continente que não tem as mesmas facilidades de transporte, que não tem nada a ver com a nossa tradição, que é uma crueldade com os torcedores dos finalistas etc.

Mal se apercebem de que esta visão, que trata a final como “propriedade dos finalistas”, é mostra do apego ao que temos de mais atrasado. Afinal, a decisão da tradicional Copa Libertadores, competição que fez 26 campeões mundiais de clubes (contra 32 da UEFA), deveria ser um evento de todo o sub-continente, com potencial para atrair interesse de outras partes do mundo. Uma festa para os torcedores de toda a América do Sul.

Alguém lamenta que a Seleção de 1970 não jogou para seu público? Não, simplesmente porque ver aquela seleção foi testemunhar algo digno de ser “patrimônio da humanidade”, para qualquer apaixonado pelo esporte, seja brasileiro, italiano, mexicano ou australiano. A Copa do Mundo é justamente reconhecida por ser uma “confraternização do futebol mundial”. Não é só dos times que a disputam, nem sequer do país sede. Não importa onde ela seja, é “ecumênica”.

A final em jogo único permite uma distinção da vida ordinária dos clubes, que sempre jogam de local ou visitante. É uma espécie de promoção a uma partida maior, com data, horário e local previamente definidos, que pertence a todos e reúne as duas equipes mais competentes daquele universo. E que por isso merecem disputar um tudo ou nada em local neutro, em um estádio de grande porte, com excelente gramado e todos os preparativos para que o maior número possível de interessados desfrute deste momento especial. Tanto que o local da decisão se torna alvo de cobiça: “Road to (local da final)” é um lema conhecido para os que acompanham a Champions League. Da mesma maneira que o inusual palco da decisão já distingue facilmente a partida para que fique eternizada na história, com caráter épico, como em “O Milagre de Istambul”, por exemplo. Quem sabe não entre para a história o “Baile de Lima”?

Para resumir: o espetáculo da final precede os clubes finalistas. A final é grande e atrativa por si só, independentemente de quais sejam os finalistas. Por isso deve ser cobiçada e alterar a rotina da cidadã anfitriã, que concorreu pelo privilégio de abrigá-la.

O argumento de que “no momento em que veriam a final sonhada, os torcedores são afastados da equipe” é uma bobagem. Para começar que só um dos dois finalistas faz o jogo de volta em casa, ou seja, só uma “torcida” (entendendo mesquinhamente que “torcida” está arraigada à cidade do time, como dão a entender) poderia ver seu time campeão. A outra, não. E é justo que um time visitante seja campeão e tenha que ver sua torcida em número muito pequeno, confinada em um chiqueirinho? Fora que em uma final de Libertadores, até mesmo estádios enormes como Maracanã e Monumental de Nuñez se tornam pequenos para torcidas gigantescas como de Flamengo e River Plate.

Aliás, quem tem mais chances de conseguir ver o que pode ser o jogo do título do seu clube do coração: o torcedor de um time que vai disputar a final em jogo único, com uma carga de ingressos igualitária à do seu adversário, ou o do que seria visitante na finalíssima da decisão em ida e volta?

Ocasiões especiais sempre demandam mais esforço. É assim com o Mundial de Clubes, por exemplo. Torcedores de todos os times do Brasil, de diferentes classes sociais, sonham com o dia em que poderão ao menos tentar “ir ao Japão” para ver seu amor conquistar o mundo. Alguém se opunha ao “Projeto Tóquio”? A conquista corintiana em 2012, com mais de 30 mil alvinegros em Yokohama, foi maior ou menor do que seria em uma Arena Corinthians repleta?

Mas sempre há os que preferem que o título da principal competição sul-americana continue sendo decidido em obscuras quartas-feiras à noite, com torcedores precisando voltar correndo para casa porque na manhã seguinte já têm que trabalhar, em jogos que muitas vezes interessam só aos países dos clubes finalistas, sem transmissão nos principais canais de outras nacionalidades. E o pior é que, não raro, alguns desses também revelam apreço por “aquela paixão que só a Libertadores tem”, com reflexos lamentáveis como policiais protegendo o jogador que vai cobrar escanteio, ou o ataque criminoso da torcida do River ao ônibus do Boca na finalíssima do ano passado. Romantizam até as guerras passadas, como de Flamengo x Cobreloa em 1981 e Grêmio x Peñarol em 1983.

Felizmente isso tudo ficará cada vez mais no passado. Antes tarde do que nunca.

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