Estádios na Europa: modelos diferentes, mas sempre com lucro

Créditos da imagem: Reprodução / La Stampa

Nesse Domingo foi jogado o Derby de Milão. A partida número 223 entre Milan e Inter teve a lotação máxima de San Siro – 80 mil pessoas – e uma renda de € 5,7 milhões só com a venda de ingressos. Fiz um post no Twitter com esta informação e um amigo perguntou, pertinentemente: “Mas qual o custo de operação do estádio?”.

É fato. Falar apenas em receita é ignorar a outra ponta da corda. Afinal, para fazer um estádio operar é preciso manter o estádio operando e bem. Quer dizer, geralmente é assim, ao menos nos melhores estádios do mundo e do Brasil. Verdade seja dita, mesmo no país a qualidade dos estádios melhorou muito nos últimos 10 anos, seja com os estádios da Copa, seja com outros novos, como a Arena do Grêmio, ou mesmo estádios mais velhos mas que passaram por mudanças internas que garantem boa qualidade de uso, como o Morumbi.

Mas retornando ao tema “estádios do mundo”, quanto custa a operação de um estádio? Será que dão lucro?

Primeiro ponto é que não é fácil analisar essas informações para todos os clubes e estádios. Utilizamos 3 exemplos para o artigo. E vamos começar por San Siro.

O emblemático estádio milanês, que pertence à Prefeitura de Milão é gerido por uma empresa controlada 50% pelo Milan e 50% pela Inter. Desta forma a prefeitura não gasta nada, mas também não recebe nada. O que ocorre é que o contrato venceu em Junho de 2018 e foi renovado apenas para Junho 2019. Tanto é que surge a ideia dos rivais milaneses construírem um novo estádio ou reformarem San Siro. Os custos estimados, seja da reforma, seja da nova obra chegam a € 600 milhões.

Mas o atual San Siro teve nas últimas duas temporadas o seguinte desempenho:

Tanto Inter como Milan pagam aluguel por uso, que varia entre € 4 MM e € 5 MM anuais, o que dá cerca de € 180 mil por jogo. Depois há receitas diversas do museu, da loja e das locações a outros eventos, de forma que o resultado final é sempre próximo de zero. Em 2018 os clubes precisaram aportar € 700 mil cada para fechar as contas.

Daí vamos comparar com as receitas de jogos de cada clube:

Veja que a gestão compartilhada de um estádio municipal garante aos clubes um bom retorno. E ambos conseguem organizar a estrutura de acesso aos torcedores, identidade visual e programas de associação bastante eficientes. Não há necessidade de um estádio para cada clube, mas sim estádios bem geridos e clubes com visão de negócio como indústrias.

Mas San Siro é um estádio antigo, sem grandes facilidades de alimentação e divertimento pré-jogo, e mesmo o conforto não chega a ser brilhante. Apesar de ser um colosso de 80 mil lugares e com uma arquitetura capaz de gerar a pressão necessária, San Siro demanda uma reforma para possibilitar ainda mais receitas. Mas isso claramente trará também mais custos.

Então, vamos analisar estádios mais modernos. Primeiro o Emirates Stadium do Arsenal. De cara é necessário dizer que os dados de receita estão claros, mas os custos ficam “escondidos” dentro dos custos totais do clube. Os dados que apresentarei a seguir são uma estimativa baseado nas informações disponíveis:

O moderno estádio do Arsenal custa praticamente 3 vezes mais que San Siro, mas além da questão da possibilidade de cobrar ingressos mais caros, ainda há mais possibilidades de fazer dinheiro com amistosos – a Seleção Brasileira costuma atuar lá – e outras facilidades pré-jogos.

Veja que Milan e Inter somados geram cerca de € 82 milhões em receitas de estádio, incluído as demais receitas de San Siro extra-jogos. Ou seja, conseguem fazer menos que o clube inglês.

Então vamos a outra cidade italiana: Turim. A cidade da Juventus e seu novo Allianz Stadium. Os números da casa della Vecchia Signora são os seguintes:

O estádio da Juventus tem a metade da capacidade de San Siro (41 mil contra 80 mil) mas faz quase 70% das receitas somadas de Milan e Inter, com custo 70% maior. A margem final do estádio é de 34%, abaixo de San Siro, mas próxima do Emirates, claramente com menos receita porque o estádio do Arsenal tem 60 mil lugares e um ticket médio geralmente maior (cerca de € 100 contra € 65 da equipe italiana).

Enfim, modelos diferentes de gestão, olhares diferentes sobre o palco dos jogos europeus, mas todos com visão de negócio. O estádio é uma peça rentável e importante na construção das marcas dos clubes e de suas forças financeiras.

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