Manter Mano para 2020? Então, Palmeiras que se resigne a coadjuvante invejoso

Créditos da imagem: Marcello Zambrana/AGIF

Entre várias outras lições deixadas pelo Flamengo de Jorge Jesus neste ano ao futebol brasileiro, uma me pareceu especialmente clara: a desmoralização absoluta da prática de poupar atletas de maneira quase aleatória.

Porque se as pessoas podem -embora definitivamente não devessem- se agarrar a ideias como “com esses jogadores é fácil o Flamengo jogar assim”, desconsiderando toda a intensidade, marcação pressão, movimentação e predileção por jogadores dinâmicos/versáteis que a equipe rubro-negra vem apresentando (e que não dependem de dinheiro ou qualidade individual), o buraco é bem mais embaixo em relação ao excelente manejo de grupo feito pelo treinador português.

É um fato incontestável que Jorge Jesus colocou seus titulares para jogar com uma frequência que não imaginávamos ser possível aqui no Brasil. Muitos chegaram a vaticinar que “desse jeito, o portuga vai arrebentar seus jogadores”. Mas, mesmo com um elenco que não é dos mais fartos em quantidade de opções (ao contrário do Palmeiras, por exemplo), o “mister” conseguiu ganhar o Brasileiro (com sobras) e a Libertadores jogando praticamente sempre com os titulares, apenas manejando algumas folgas pontuais em um sistema de rodízio que mal se percebia. Um verdadeiro tapa na cara de toda a comunidade do futebol no Brasil (incluindo a imprensa e os torcedores), que não pensava que isso era possível.

Porém, acima de tudo, um golpe fortíssimo em Renato Gaúcho e Mano Menezes, que nos últimos anos se notabilizaram por privilegiar a Libertadores e a Copa do Brasil, por Grêmio e Cruzeiro, respectivamente. Os torcedores gremistas e cruzeirenses, que ano após ano se habituaram a ver seus times entrarem no Brasileirão com o selo de “um dos favoritos ao título”, mas protagonizarem fracassos retumbantes nos pontos corridos, com frequentes escalações completamente reservas, devem se sentir especialmente lesados ao verem o sucesso rubro-negro.

Estamos todos aprendendo sobre isso. Talvez Renato não repita o mesmo erro no ano que vem (a conferir). Só que ao ver o Palmeiras de Mano Menezes poupando jogadores -e sendo derrotado- pelo Fluminense, ficou martelando na minha cabeça a frase atribuída ao diplomata francês Charles Maurice de Talleyrand: “Não aprenderam nada, nem esqueceram nada”.

Depois que Jesus quase não poupou na conquista de duas competições, uma delas com jogos eliminatórios, qual é o sentido de Mano poupar estando apenas em uma competição? Os três pontos contra o Fluminense valem menos do que os três pontos contra o Flamengo? O Palmeiras está disputando alguma coisa diretamente contra o já campeão Flamengo? O treinador palmeirense deveria ter vergonha de fazer isso. Isso deveria representar sua desmoralização definitiva pela imprensa e pela torcida, além de provocar sérias cobranças da diretoria.

O ultrapassado técnico gaúcho já tinha adotado prática semelhante contra o Vasco, numa quarta-feira, com vistas ao clássico contra o Corinthians, no sábado. O que não serviu sequer para bater o fragilizado time do Parque São Jorge, comandado pelo interino Coelho, em um Pacaembu exclusivo para a torcida palmeirense. Mas agora é ainda pior, pois se algum resultadista ainda esperava pela decisão da Libertadores para poder cravar se o técnico europeu do Flamengo estava certo (como se só os títulos referendassem acertos óbvios), nem a isso mais pode se agarrar.

Mano não é apenas defensivista e alguém que pode apelar a práticas lamentáveis quando convém (como atrapalhar vergonhosamente Reinaldo, então na Chapecoense, na cobrança de um lateral). Ele parece gostar de encarnar esse vilão, esse “anti-Jesus”, sendo uma espécie de apologista dos vícios que tanto estrago fazem ao nosso futebol doméstico.

E é aí que entra a diretoria palmeirense. Já era absurdo contratar Mano para comandar o então campeão brasileiro depois que ele consolidou o Cruzeiro no Z4, fazendo com que ele “caísse para cima”,(como bem definiu Mauro Cezar Pereira). Mas, embora eu discorde, ainda consigo entender que era visto como uma espécie de interino, unicamente para tentar buscar o título brasileiro, por ter características mais parecidas às do Felipão, em um cenário sem tempo para treinamentos e aspirações a mudanças maiores. Só que se ele já não deveria ter tido a oportunidade, o fato é que ele foi reprovado na que teve. Sua permanência para 2020 seria simplesmente um escárnio. Seja pelo mau desempenho, pelos resultados insatisfatórios, pela falta de perspectivas ou por mensagens como privilegiar os próprios interesses (vencer Corinthians e Flamengo é mais importante para Mano e sua busca por permanecer no cargo do que para o Palmeiras em si), não há simplesmente nenhuma razão para que ele prossiga no ano que vem.

Que o futuro do Palmeiras não precise de uma constrangedora derrota para o Flamengo em pleno Allianz. Porque se esse for o custo para o clube enfim pensar em alternativas adequadas para 2020, certamente valerá a pena. Senão, que um dos dois clubes mais poderosos do país na atualidade já se resigne ao papel de coadjuvante invejoso do Flamengo também em 2020.

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