Palmeiras – a trilha para se tornar – e o rumo para se manter – vencedor

Créditos da imagem: Cesar Greco / Ag. Palmeiras

Não que me sinta compelido a isso, pois não me curvo a malcriações. Porém, vale completar a trilogia do Mundial (dentro da parceria com Danilo Mironga) com uma coluna a respeito da correta postura do Palmeiras em seus planos para o torneio. Especialmente porque, em momento algum, realizou insanidades financeiras para disputar uma competição em que o título era improvável – mesmo com o campeão europeu fora de seus melhores dias. Tampouco fomentou oba-oba e muito menos cedeu a sugestões populistas de animadores de auditório. Enfim, expôs a sobriedade que muito tem a ver com as conquistas recentes.

Não é unânime o gosto pela escolha, desde a remontagem com Paulo Nobre, de um jogo predominante de espera. A presunção é a de que o poder financeiro monte equipes com iniciativa. Mas, na época, quase 100 % do futebol nacional consistia em chutões e contragolpes. Jogar diferente era ser romântico ou exótico. Então era compreensível que elenco e treinadores estivessem dentro de tal proposta – incluindo o retorno de Felipão em 2018. O momento crítico veio em 2019. Ambiente e resultados foram atingidos pelo sucesso de Jorge Jesus e Jorge Sampaoli – mesmo sem títulos pelo Santos. Perdida, a diretoria demitiu Scolari e tentou o ultrapassado precoce Mano Menezes. Com o óbvio fracasso, dispôs-se a mudar de filosofia com Sampaoli. A negativa do argentino levou à inacreditável decisão de requentar Vanderlei Luxemburgo. Foi o ápice da curta incoerência.

Talvez a (muito) triste ajuda da sorte tenha sido o começo da pandemia. 2020 foi se arrastando e, assim, os danos foram menores que em condições normais. Deu tempo para que, quando Luxemburgo enfim fosse demitido, houvesse um técnico estrangeiro acessível e compatível com o elenco existente, bem como com sua maneira habitual de atuar. Por coincidência, ele se fez notar justamente numa eliminação de Jorge Jesus. Seu Benfica foi superado no penúltimo jogo da seletiva para a Champions League. O treinador do algoz (PAOK) era o compatriota Abel Ferreira, que já chamara a atenção no comando do Braga-POR. Ironicamente, agora era o Palmeiras que se ajustava ao que tinha em mãos, enquanto o Flamengo se complicava na busca por outro Jesus. Achar um bom treinador ofensivo não é propriamente uma ida à feira.

Vale realçar o seguinte: jogar na espera não é atuar na retranca. Abel Ferreira estuda os adversários e procura treinar jogadas em cima de suas lacunas defensivas. Como boa parte do que treina realmente acontece no jogo, ganha a confiança do elenco, que topa correr com um propósito. Por outro lado, mesmo com Abel, chega um momento da partida em que os adversários mais qualificados se adaptam às armadilhas e fogem delas. Como mencionei na coluna anterior, até o bagunçado Flamengo de Renato Gaúcho barrou as saídas palestrinas a partir do segundo tempo. Foi nesta parte do roteiro que, pois sim, a sorte ajudou o Palmeiras a chegar à decisão da Libertadores e vencê-la. Não é vergonha apontar isso. Constrangedor, pois sim, foi um comentarista reclamar que a mesma sorte não acompanhou o time até o minuto final contra o Chelsea.

De todo modo, sem trabalho a sorte não teria como ajudar. Seguir uma linha de treinamentos, concretizá-los em campo e não se descontrolar perante as adversidades tem sido o núcleo das ocasiões bem-sucedidas no Palmeiras. Isto inclui ser previdente. Tivesse repetido exemplos passados e feito contratações apenas para Abu Dhabi, o resultado provável seria o mesmo. Assim como não teria o menor impacto levar um aspirante a atleta que nem tinha treinado com profissionais. A rigor, em termos realistas, nem levar os titulares faria diferença no final. Mas o Palmeiras tem que tentar, pois os rivais paulistas já têm o título mundial. A não ser que, como dito na coluna do Mironga, realmente se reconheça a Copa Rio de 1951 com tal status. Do contrário, há que se equilibrar as coisas. Nem comprometer o planejamento do ano, nem entrar como figurante assumido.

Por ora, escolher a espera está mostrando resultados excepcionais. O último clube brasileiro bicampeão sul-americano foi o São Paulo, em 1993. Quase 30 anos atrás. E se as coisas mudarem? Já não foi nada fácil superar Atlético-MG e Flamengo ainda espalhados em campo. Se atuarem de forma mais compacta e organizada, dificultarão os estratagemas de Abel Ferreira. Ele será capaz de se adaptar? Em caso negativo, o Palmeiras vai querer outro caminho ou aprimorar sua escola defensiva? Ouso chutar a resposta: enquanto se sentir forçado a ir atrás do que não possui, seguirá com a opção que, eventualmente, pode machucar o Golias europeu. Só vai aceitar uma transformação substancial, com custos e tempo necessários, caso se sinta dispensado da busca pelo seu torcedor.

Cabe, portanto, à torcida decidir se precisa desta prioridade que pode engessar o futuro do time. E aí, palmeirense?

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