Deem um Mundial ao Palmeiras, por misericórdia!

Créditos da imagem: Reprodução / palmeiras.com.br

Decidi mudar meu posicionamento de décadas e apoiar o Troféu Fax. A FIFA tem que definir a Copa Rio de 1951 como o primeiro Campeonato Mundial de Clubes. Não porque é verdade, porque verdade não é. Seria um gesto de inequívoca piedade. Com quem? Com o futebol brasileiro e sua dificuldade de ver o mundo como ele é. Presentear o Palmeiras é iniciar o processo de aceitação. Todos os rivais paulistas teriam pelo menos um título. Não precisariam de mais pra não serem eternamente zoados. Aí o Mundial de hoje deixaria de ser projeto irreal pra virar seu status prático: um “vai que dá certo”, com o “vai que” cada vez menos esperançoso.

Palácio de Cristal, de She-Ra (Reprodução)

“Ah, mas e as outras rivalidades?”. Encaremos: só o carioca Flamengo, que já tem um, vai continuar levando Libertadores. Não é porque o dono do time da She-Ra (Crystal Palace) comprou o Botafogo que o planeta vai ficar de cabeça pra baixo. O Fluminense perdeu a vez em 2008. O Vasco fará muito se voltar à primeira divisão. No RS, Grêmio e Internacional estão empatados com um cada. Em Minas, Cruzeiro e Atlético empatam com nenhum – nem Copa Pão de Queijo rolou. Pronto, resolvido. Seremos finalmente como os europeus. Eles não acham que o título continental é o topo? Nós também acharemos. Isso se o resto do continente colaborar. Se continuar uma festa do caqui verde-amarelo, daqui a pouco a Copa do Brasil será o cume. Algo como o Pico da Neblina superar o Everest. Mas quem está interessado em geografia?

Se o mundial virar qualquer coisa, também não vai ter título imaginário de “jogar de igual pra igual”. Manda um sub-20 (já não queriam mandar um garoto de 15 anos?), perde pro Al Tabule na semifinal e vida que segue. Deveriam até selar isso com um pacto entre os clubes. Incluindo multa que nem o mais pródigo dos mecenas pague. Pra Europa talvez não mude muito. Nos últimos dez anos, só tomaram um gol de time sul-americano – o pênalti marcado por causa da folha corrida de Tiago Silva. Desde 2013, o time mais perto de surpreender foi o japonês Kashima contra o Real Madrid. Como manda o protocolo, técnicos e jogadores europeus seguirão elogiando as qualidades individuais dos adversários (mas nada de contratar um deles). Ou a disciplina coletiva – entenda-se: retranca. Teve trouxa caindo nessa pra “provar” que estamos quase no mesmo nível. Realmente…

Pra que este cenário maravilhoso sem autoengano se concretize, a FIFA terá que se inspirar na lendária Mamãe Gump. Não tem problema contar uma mentirinha bem-intencionada que não faz mal a ninguém. Até porque era mesmo um campeonato. Tinha mesmo times de fora do país em que foi jogado. De internacional pra mundial é um pulo semântico. Aproveita o embalo e dá mesmo as Olimpíadas de 1924 e 1928 como Copas pro Uruguai. Aí, pros argentinos não terem um faniquito ao som de tango, decreta que a AFA poderá convocar jogadores nascidos nas Malvinas. Não é hora pra desunião entre hermanos. O que importa é ajudar o futebol doméstico do Brasil (por tabela, da América do Sul) a virar a página. Teve seus dias de glória planetária e agora tem um planeta encolhido a português e castelhano. “Así és la vida”, Pancho!

Claro que não faria uma proposta dessas se não achasse a situação irreversível. Pelo menos a Copa do Mundo segue um sonho bastante possível. Ao menos enquanto o Brasil tiver jogadores por lá e enquanto não aparecer um maluco decidindo levar só jogadores nacionais. Aí vão ter que apelar por outro reconhecimento de mentirinha pra sair do atoleiro do penta. Aquele dos 150 anos da independência não rola, não?

Deixe sua opinião e colabore na discussão