Santos é o clube do acaso

Créditos da imagem: Arquivo Santos FC

Desesperança ou senso de realidade? Santos é o clube do acaso

“Será que o Santos será campeão (novamente) algum dia?”.

Foi assim que demonstrei para o meu pai, em 1995 -e também em 2001*- (em meio a outras frustrações menores e algumas poucas alegrias como o Torneio Rio-São Paulo de 1997 e a Copa Conmebol de 1998), a minha preocupação sobre o destino do clube e da minha relação para com ele.

Sim, como é sabido, eu vi o Santos ser campeão! Especialmente com Diego e Robinho e, anos depois, com Ganso e Neymar, o Peixe voltou a viver tempos de glória.

No entanto, aquilo que em alguns momentos chegou a ser motivo de orgulho para o torcedor santista (refiro-me à pecha de “fábrica de craques”, de times quase inteiros formados por “Meninos da Vila”, ou aquele papo de que “a base sempre salva” etc), a bem da verdade, só faz escancarar como o Santos é o clube do acaso. Explico: aquela instituição que revelou Pelé e Neymar parece não acreditar no trabalho bem feito e só faz sobreviver.

Isso mesmo, o Santos apenas sobrevive.

Paradoxalmente, em razão de seguidas más gestões, o maior clube do Brasil fora de uma capital ficou conhecido por revelar jogadores, no entanto, ressalte-se que isso somente se deu pela própria limitação santista. Em outras palavras, não havia opções melhores do que lançar meninos, já que, planejamento para grandes contratações, muito pouco se viu durante a história santista. E assim, inevitável e quase que aleatoriamente, muitos craques acabaram surgindo. Na marra!

Trata-se, até hoje, do famoso “não tem tu, vai tu mesmo”.

Só que o futebol mudou e o Santos já há algum tempo deixou de ser o único grande que coloca a garotada em campo. Basta olhar para os vizinhos paulistas para constatar que até mesmo o milionário Palmeiras passou a seguir esse mesmo caminho, financeiramente mais sensato.

De maneira que a tendência é de que o Santos deixe de ser a “menina dos olhos” de grandes empresários para que estes lancem os seus “produtos”. E, menos meninos, quer dizer menos vendas. E, menos vendas, quer dizer menor capacidade para estancar a sangria e maquiar o fracasso administrativo do clube.

Um possível aspecto positivo: menos dinheiro pode representar menos espaço para o cometimento de loucuras e também atos de corrupção (em tempo: nunca duvide da criatividade de um dirigente de futebol).

Mas agora vamos ao que, de fato, motivou essas linhas: os pedidos de rescisão de contrato realizados na Justiça do Trabalho pelo goleiro Everson e pelo atacante Sasha (que podem iniciar uma debandada). Depois de reduzir arbitrária e unilateralmente os vencimentos de seus jogadores (com os quais, segundo consta, o clube já possuía um histórico de pendências financeiras) durante a pandemia da Covid-19, o Santos “abriu a porteira” e, agora, já sem o dinheiro da venda de Rodrygo (40 milhões de euros!), além de ver a crise econômica agravada pela pausa forçada do futebol, tende a virar um clube esportivamente médio, coadjuvante no cenário futebolístico nacional, à espera de “novos raios” (como são chamados os craques revelados na base).

Veja, se no ano passado o Santos foi o maior parceiro do Flamengo (refiro-me à badalada dupla de ex-santistas formada por Bruno Henrique e Gabigol, além da vitrine gratuita de Jean Lucas, que rendeu 34 milhões ao Fla e nem um real aos cofres santistas), pode ser que 2020 seja o ano da parceria com o Galo, de Sampaoli (fã declarado e supostamente interessado em trabalhar novamente com Everson, Sasha e outros jogadores santistas, desta vez em Belo Horizonte).

Sobre isso, penso que culpar os atletas ou o ex-treinador santista seja, além de imaturidade (vamos combinar que o Santos pouco tem a oferecer atualmente, além de pressão e instabilidade), um serviço prestado à diretoria santista, esta sim a grande responsável (assim como as anteriores) por essa derrocada e que deveria, pois sim, ser duramente cobrada.

E assim caminha a mediocridade, como diria o outro.

 

*Em 1995, o Santos foi vice-campeão brasileiro em duelo com o Botafogo de Túlio Maravilha; em 2001, perdeu a semifinal do Campeonato Paulista para o Corinthians de Ricardinho.

 

Leia também:

– Santos, o clube que vende, vende e vende, mas está sempre sem dinheiro

Um comentário em: “Santos é o clube do acaso

Deixe sua opinião e colabore na discussão