Aviso aos navegantes da Gávea – não será moleza, ora pois…

Créditos da imagem: EFE/EPA/TIAGO PETINGA

Em plena era de comunicação instantânea internacional, fala-se que dirigentes do Flamengo vão viajar à Europa atrás de um treinador. Algo como se estivéssemos no século 19, quando o imperador Dom Pedro II praticamente não dormia durante suas viagens ao Velho Continente, pois do contrário só restariam cartas e telegrafia. Das duas, uma: ou a viagem é um factoide para acalmar os ansiosos, ou existem contatos mais adiantados à espera do contato pessoal para finalização. Está mais para a primeira alternativa.

Difícil imaginar momento tão pouco propício para um técnico se deslocar da Europa e trabalhar no Brasil. Não faltam razões para dizer FICO, só que do outro lado do oceano. Vejamos:

1 – a pandemia de Covid-19 – o leitor pode até acreditar em teorias conspiratórias, ou que uma dose de cloroquina ou vermífugo resolve tudo. O que importa é que os treinadores da Europa não acreditarão. Estão vendo que, enquanto seus países conseguiram baixar os índices estarrecedores, o Brasil é considerado um dos piores, se não o pior no combate à disseminação da doença. Isto implica uma série de dificuldades – ao próprio técnico, bem como a parentes e amigos.

2 – a economia – antes mesmo da pandemia, o real estava em crescente desvalorização. Tanto que a renovação de Jorge Jesus chegou a travar por causa do euro. Por sua vez, a crise pandêmica no Brasil faz com que a recuperação econômica demore mais que na Europa. Inclusive porque, reitera-se, o Brasil já não estava bem das pernas. Mesmo a situação financeira privilegiada do Flamengo não escapa de cautelas. Uma coisa é gastar com um técnico cujo sucesso estava comprovado. Outra é fazer o mesmo com uma nova experiência. Se é que o candidato não pediria mais que Jesus, por um período maior.

3 – perspectiva de carreira – a tese de que um grande trabalho na América do Sul abriria portas dos grandes da Europa não ganhou suporte nem com Jesus. Ele não foi sondado por grande clube algum. A porta que se abriu foi uma no qual já tinha feito História. “Ah, mas a final contra o Liverpool?”. Não houve nenhuma repercussão do chamado “jogo de igual pra igual”. Mesmo uma eventual vitória rubro-negra teria sido vista como tropeço inglês. Treinar no Brasil seria muito mais uma aventura que um gesto calculado para a carreira. Jesus só aceitou vir quando já estava em vias de aposentadoria no Oriente Médio. Situação diferente daquela de quem está galgando degraus. Não custa lembrar que o concorrente Sampaoli tampouco ganhou convites europeus enquanto treinava o Santos.

4 – mercado restrito – o desempenho claudicante de Setién no Barcelona mostra que praticar futebol agradável em times menores é um bom sinal, mas apenas um bom sinal. Jorge Jesus levava seus times à disputa de taças. Ganhando ou perdendo, constantemente estava decidindo. A imensa maioria de técnicos na Europa possui melhores noções táticas, mas paupérrimas passagens por disputas de títulos. Quando se pensa em treinadores que levam seu trabalho a estágios de quem pretende disputar campeonatos para ganhar, as alternativas se afunilam violentamente. Os treinadores infortunados por lá tenderiam até a aceitar uma proposta, mas o risco de fiasco seria muito maior. Inclusive em termos de respeito dentro do elenco.

O Flamengo está certo ao tentar. Daí a conseguir tem um Atlântico (via caravela, não avião) de distância. É mais provável que sua opção europeia acabe sendo Miguel Ángel Ramirez, do Independiente del Valle. Mas vale lembrar: foi o time que teve um a mais no Maracanã, na final da Recopa, e só chegou num único lance. Vão ter que analisar bem para ver se realmente é compatível com o que Jesus fazia. Ou, então, o jeito será investir no produto sul-americano, provavelmente nacional. Não será surpresa se, no fim, Renato Gaúcho finalmente chegar. Um trabalho comprovadamente mais atrasado que o do português. Porém, nem sempre se dribla a realidade com um achado. Quase nunca.

PS: enquanto isso, os humoristas lusos devem estar se deliciando com as piadas de técnicos brasileiros. “Não ganha nada que preste há mais de dez anos e quer dar palpite sobre o que ganhou campeonato nacional e continental no mesmo final de semana! KKKKKKKKKK”…

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