“Se num jogo não há juiz, não há jogada fora da lei”

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“Se num jogo não há juiz, não há jogada fora da lei”.

Esta frase está numa conhecida letra de Humberto Gessinger e fez sucesso no início dos anos 1990. Trinta e dois anos mais tarde, ouso ramificá-la para perguntar: e quando o juiz (árbitro) ignora a lei (regra) do jogo? Como marcar falta quando o jogador domina a bola claramente com o peito. Ou pênalti numa infração cometida dez metros fora da área? Ou, melhor ainda (?), colocando a bola na cal após ser defendida pelo goleiro? Quando o responsável por aplicar as regras as rasga, seja por qual propósito for, tudo o que vier estará longe de ser um resultado justo.

Sim, as normas esportivas dizem que o erro de direito (na interpretação das regras) pode resultar na anulação da partida. Mas e se, por alguma motivação surpreendente (ou não), os entes superiores decidirem que as decisões do árbitro devem prevalecer? Em tese, técnico e jogadores devem obedecer sem reclamar, mesmo sabendo que a jogada limpa de dois minutos antes pode virar lance de cartão vermelho. Até a central do apito, após malabarismos para justificar a arbitragem, dirá que os participantes não podem desafiar a autoridade máxima em campo. Como se o jogo servisse ao árbitro e não o contrário.

Evidentemente, as coisas não serão assim. Seguindo a máxima do letrista e vocalista Humberto, cada exército de um homem só aplicará a regra que lhe interessa, mesmo sem apito na boca. Treinadores escalarão doze atletas – ou quinze, com direito a dois goleiros. Zagueiros darão voadoras até no gandula. Atacantes usarão braço, mão e tudo o que for útil para o gol – que será alargado ou encolhido, dependendo do interessado. Será um jogo horroroso, ganhe quem ganhar – provavelmente, com os dois times proclamando vitória após cento e cinquenta (ou dez) minutos de partida.

Regras são feitas para serem interpretadas, jamais ignoradas. Um árbitro pode dizer se um toque no adversário foi suficiente para ser considerado faltoso, ou se um resvalar de braço na bola deve ser pênalti – desde que dentro da área. Não se pode validar gol de mão porque “o bem do futebol recomenda a vitória do Crudujudas FC”. Ou dar falta para anular tento legítimo, porque o jogador não deu boa noite pro adversário. Se um jogador querido da torcida chutar a cabeça de outro, sua expulsão não pode ser anulada porque o árbitro já tomou cafezinho com o que apanhou. Os fatos estão aí. Contrariá-los, ainda mais com VAR, é transformar autoridade máxima em impostor supremo.

A partir daí, é vale tudo. Minto: até vale tudo tem regras. Será tão somente um jogo sem controle, num campo sem vergonha.

Nota do site: esta é uma coluna sobre futebol, de modo que nem o site, nem o autor se responsabilizam pelo que os leitores encontrarem em eventuais entrelinhas do horizonte deste texto.

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