Sobre as marmotas e Leis que assolam o tricolor paulista e suas frustrações repetidas

Créditos da imagem: Reprodução / SPFC

O calvo legislador – ou “o SPFC e seu ruinoso otimismo compulsório”

No Fórum O Mais Querido (FOMQ), criou-se o termo “ano da marmota” para definir as temporadas do São Paulo. Não é difícil de sacar, porque o filme “Feitiço do Tempo” passa constantemente na Sessão da Tarde (um jornalista muito louco arruma uma tremenda confusão com essa galera do barulho presa no tempo). A torcida começa acreditando em algum “fato novo” e termina frustrada. É a marmota voltando pra toca e anunciando mais inverno. Eis que, ainda nas horas finais de janeiro de 2019, o simpático animal já dá seus primeiros passos de volta. Resultado de um clube que não apenas ignora a Lei de Murphy, como cultiva a Lei do Eike.

Mas o que seria a Lei do Eike, ora pois? Primeiro temos que lembrar o engenheiro espacial Edward Murphy e o funcionário que estragava todos os experimentos. Murphy teria dito “se este homem tiver um meio de cometer um erro, ele o fará”. Os colegas, achando graça, aperfeiçoaram seu enunciado: tudo o que pode dar errado vai dar errado. Não é difícil associá-la às gestões são-paulinas. O que acrescento é a Lei cujo batismo ouso assumir. A inspiração, obviamente, é o empresário Eike Batista. Em seus dias de glória (muitos deles com ajuda do nosso bolso), seduzia investidores com projetos supostamente promissores. A maioria deu com os burros n’água e descobriram o motivo: no lugar de relatórios sérios, os prospectos concluíam pela melhor das hipóteses. Ou seja: tudo o que pode dar certo vai dar certo. Essa Lei definitivamente “não pegou”. Culpa da realidade.

No São Paulo, essa Lei é comumente enunciada na expressão “pode ser uma boa”, normalmente seguida de exemplo animador. Como na vinda de Rivaldo, ainda no ano do golpe de Juvenal Juvêncio. A Lei de Murphy indicava um jogador em fim de fim de carreira – já obscura nos anos derradeiros. A Lei do Eike remeteu a veteranos que fizeram sucesso, ao poder da experiência e à desonestidade estatística de que, “se jogasse 30 % do que jogava, já seria sensacional”. Voltei a 2011, mas os casos acontecem a todo momento. Seja Juvenal, seja Leco, seja Aidar, seja Raí, todos ainda acreditam na peruca. O que nos leva a André Jardine. A Lei de Murphy manda cogitar que, sem nunca ter treinado um time profissional, os métodos no sub-20 poderiam falhar. Já a Lei do Eike brada, sem aceitar opiniões contrárias, que o que funcionou lá vingará aqui. Murphy vai levando mais uma. 

Existem dois requisitos interligados que considero indispensáveis na gestão de qualquer área, mas particularmente imprescindíveis no futebol. O primeiro é, contrariando os “Tempos Modernos” de Lulu Santos, dizer mais NÃO do que sim. O segundo é procurar antever o erro que não salta aos olhos. “Ah, mas assim você nunca sai do lugar!” – é a crítica mais fácil a esta acepção. Mas existe uma óbvia diferença entre ser previdente e ser covarde. O previdente age assim porque aprendeu com experiências passadas – dele e dos outros. O covarde é um despreparado que não sabe distinguir o promissor do desastre. O futebol exige previdência porque jorram empresários oferecendo “craques”, ou leões de estaduais que a imprensa transforma em selecionáveis. Ou técnicos modernos como uma calça boca de sino. Armadilhas não faltam. Só um tolo acha pode escapar de olhos fechados.

Evidentemente, a situação de cada clube pode forçar dirigentes a maneirar no Murphy e carregar no Eike. Como o Fluminense trazendo Ganso, rezando pra que o “pode ser” efetivamente se torne “uma boa”. Não deveria ser o caso do São Paulo. O clube não tem a bonança financeira do Palmeiras, mas seu caixa permite gastos bons e seguros. Raí e Leco (ou vice-versa), porém, vão topando o que aparece na frente. Quando é um Hernanes, o prospecto realista permite assumir os riscos. Já quando se trata de um Everton Felipe, um Carneiro, uma dupla de veteranos, etc…, no mínimo metade deveria ser descartada. Era questão de estudar e não fechar cegamente com a propaganda otimista. Em vez disso, quase tudo no elenco (incluindo o técnico) é baseado em perspectivas positivas forçadas. Não teria como dar certo, mesmo que Murphy nunca tivesse nascido.

Como ainda estamos começando fevereiro, tecnicamente é possível o São Paulo fazer deste ano algo útil. Mesmo que porventura nem dispute a Libertadores. Raí (ou quem estiver no cargo, porque deveria se demitir tão logo Jardine caia) deveria encampar o objetivo de, não apenas da boca pra fora, preparar um time – de modo previdente – para evoluir em 2019 e ter resultados cobrados em 2020. Tudo o que não aconteceu nos últimos anos, em que sempre se começa do zero. Isso inclui manter a torcida informada, em vez de iludida. Só assim ela aceitará a marmota voltando à toca, confiante de que no ano seguinte Bill Murray, enfim, terá um novo dia com Andie MacDowell – nem dá mais pra chamar de spoiler.

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