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Gustavo Fernandes

Juiz de Direito do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, não resiste a um bom debate sobre esportes, desde futebol até curling. São-paulino, é fundador e moderador do Fórum O Mais Querido (FOMQ). Não esperem ufanismos e clichês. Ele torce, mas não distorce.
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Análise combinatória – entendendo por que seu time é bom ou ruim

Há umas dez colunas atrás, comentei sobre um equívoco de comentaristas e locutores, a respeito do chute de fora da área como meio óbvio de furar retranca. Existem outras assertivas que seriam tão simples se os fatos realmente fossem tão simples. Uma delas é um clássico clichê consistente em dizer que “com esses jogadores o time X tinha que estar melhor na tabela”, comumente usada para insinuar corpo mole ou incompetência do treinador. Às vezes é isso, mesmo. Porém, é perfeitamente possível que um time leve a melhor na maioria das comparações individuais, tenha um bom técnico, treine horrores e, mesmo com tudo isso, seja inferior ao adversário. Como? Por conta do equívoco de medir a qualidade do elenco pela soma. O que conta, pois sim, é a combinação destes jogadores.

Os leitores da minha faixa etária já devem ter ouvido falar do Casal 20. Não estou falando da série de ação melosa, e sim da dupla de ataque do Fluminense nos anos 80. O ponta-de-lança Assis e o centroavante Washington, individualmente, não eram primores técnicos. Poucos sabem, por exemplo, que Assis jogou no São Paulo entre 1980 e 1981, sem chamar a atenção. Washington era apenas um dos tantos camisas 9 bons de jogo aéreo. Juntos, contudo, complicavam a não raro venciam o Vasco de Roberto Dinamite e o Flamengo de Zico. Sem contar que, no Fluminense, são mais históricos e memoráveis que diversos atletas mais virtuosos. Somados, seriam cinco mais cinco. Combinados, eram dez mais dez. Não poderia mesmo ter havido apelido melhor. E tem o reverso. Em 1995, o Flamengo orgulhosamente o melhor ataque do mundo – Romário, Sávio e Edmundo. O brilho só ficou na rima. Na prática mesmo, foram 5 mais cinco e mais cinco – e olhem lá. Em compensação, os menos badalados Túlio, Donizete e Sérgio Manoel não foram exatamente nota trinta, mas ao menos vinte e um com louvor, no Brasileirão daquele ano. Deu liga no samba.

Imagino que, neste ponto do texto, os leitores já começaram a entender o espírito da coisa. Vamos continuar com um exemplo hipotético do vôlei. Imaginem uma seleção brasileira de todos os tempos com o time titular tendo Marcelo Negrão, Giba, Renan, Nalbert, Tande e Wallace. Timaço, não? Não! Perderia até da trigésima seleção do ranking. Quem escalou este suposto time dos sonhos se esqueceu do levantador. OK, vamos colocar Ricardinho no lugar de Tande. Agora é ouro, certo? Errado! Continuaria apanhando, porque não teria jogadores de meio de rede. Assim como, seguindo na lapidação, Wallace ou Negrão teriam que sair, pois só cabe um oposto. Digo mais: qualquer pessoa que acompanha este esporte saberia disso logo de cara. Assim como o torcedor de basquete já avisaria que um time com três pivôs ou quatro alas vai levar uma surra. Por que quase todos os fãs de futebol não anteviram que o trio do Flamengo não daria certo? Talvez porque os comentaristas de vôlei e basquete não decretam que “craque tem que entrar e pronto”, como nove entre dez no lupopédio. Ou o torcedor aprende isso sozinho, ou passa a vida toda culpando a realidade por suas opiniões nunca terminarem na rede adversária. “Pô, mas o Caio falou”…

É verdade que o futebol permite mais variações que estes outros esportes. O vôlei praticamente estancou as posições há décadas. No basquete, no máximo se combina pivô e ala, ou armador e ala. No esporte bretão, só no meio-campo já podemos falar em volante, segundo volante, terceiro volante, meia-atacante, meia-armador, meia aberto, etc… No ataque, criaram até o falso nove. Na defesa, pode ou não existir o terceiro zagueiro, assim como o lateral pode virar ala e integrar o meio-campo. Como se não bastasse, cada função pode ser exercida de modo bem diferente. Só que as possibilidades são múltiplas, porém longe de infinitas e sem chance de dispensar certos requisitos. Técnicos podem ser criativos ao máximo, nas precisam de – ao menos – oito marcando, ou seu time só vai ganhar uma daquelas Copas Bozo do SBT. O Barcelona teve temporadas gloriosas com o trio MSN, mas Neymar corria atrás do lateral adversário – provavelmente o principal motivo de sua ida ao PSG. Também não há como abrir mão de pelo menos um volante, ou o sistema defensivo vira uma festa do caqui. Claro que não cabe tudo num parágrafo (nem mesmo num artigo), mas gestor e técnico precisam atentar a tais pontos, para não gastarem rios de dinheiro com o catado mais caro do torneio.

Se nada disso bastou para convencer que elenco é combinação, talvez fique mais nítido quando o assunto for time grande na zona do rebaixamento. Sempre que acontece, cria-se uma espécie de negação de riscos, citando as estrelas para instituir que “há outros piores”. Pode haver outros com jogadores ainda mais fracos, mas que em conjunto sejam menos ruins. Até porque existem diferenças claras na montagem de um time para ser campeão (seja tomando a iniciativa ou pensando no contragolpe articulado) e uma equipe para não ser rebaixada (marcando com nove ou dez e jogando assumidamente por “uma bola”). Estão mais preparados, inclusive na mentalização, para conviver com o risco por trinta e oito rodadas. Enquanto isso, o time grande acha que é questão de o jogo encaixar. Mas o jogo não encaixa. O lateral não ataca, nem defende. O meio-campo pode ter quem trate bem a bola, mas a dez por hora. E o ataque até mostra um jogador rápido, mas grosso. Não é nem que a escalação só é boa no papel. Ela já é horrível no papel. Você é que, julgando que é só somar, não entendeu.

Pense nisso antes de chamar um time de vagabundo ou mal-treinado. Ele pode ser apenas muito mal montado. Aí só tem um jeito de ir pras cabeças ou escapar da degola: torcer para que as outras combinações sejam piores que a sua.

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Eliminatórias acabaram. Ufa!!! Acabou a temporada de abobrinhas sobre Messi

Ele não é argentino. Ele não tem o espírito de Maradona. Ele não dá carrinho na lateral pra mostrar que tem raça. Ele não faz média com torcida. Só faltou dizerem que não é bonito como Cristiano Ronaldo ou que pegou menos mulheres que Neymar. Tudo porque a pior seleção argentina corria sério risco de ficar fora da Copa do Mundo. E o crucificado seria justamente o que carregou o time nas costas, contra tudo e todos – incluindo a ruindade dos colegas e a histeria da crônica esportiva de seu país.

Comenta-se que Lionel Messi não joga nada pela seleção. Imaginem se jogasse. É seu maior artilheiro, incluindo Eliminatórias. Isso sempre sendo muito mais sugado que favorecido numa equipe que segue praticando futebol de museu – no mau sentido do termo. Laterais que atacam mal. Volantes que só destroem. Atacantes talentosos, mas que despencam quando não atuam num time que jogue em sua função. Messi também sofre, se compararmos com seus números no Barcelona. Mesmo assim, é uma desonestidade dizer que não produz. O seu “jogar menos pela seleção” seria desempenho antológico em 90 % das outras equipes nacionais. Sua “culpa” é ter escolhido atuar pelo país onde nasceu. Tivesse preferido ser espanhol e teria no mínimo uma Copa, além de números provavelmente similares aos obtidos no Barcelona. Mesmo porque seriam quase os mesmos companheiros. Quase covardia.

Infelizmente, cada vez mais a análise individual se baseia em títulos que não dependem apenas de um atleta. É o que detesto no culto aos “protagonistas”. Não que eles não existam, mas é uma ignorância colossal imputar-lhes todo o sucesso ou fracasso, num esporte em que pelo menos mais dez precisam jogar. Minha geração viu Michael Jordan ser o Pelé do basquete, esporte com cinco em quadra. Pois ele passou os primeiros anos sendo questionado por não chegar às finais da NBA. O que fez seu clube? No lugar de explorar seu protagonista até o bagaço, montou um elenco de apoio. Trazer Pippen, Grant, Rodman, entre outros coadjuvantes de brilho, elevou o destino do maior de todos. Não é o que acontece com o futebol argentino, destroçado por dentro e por fora. Um país em que Centurión chega a ser considerado craque. “Say no more”, diria Charly Garcia, gênio e louco do pop vizinho.

Outro azar de Messi é que os argentinos acreditam que Maradona, em 1986, foi exceção à regra e ganhou uma Copa sozinho. Não foi bem isso. Havia colegas de qualidade e uma forma de jogar que beneficiou o camisa 10. Antes desta organização, seu fato mais marcante com a camisa azul e branca era o chute no estômago de Batista, em sua primeira Copa do Mundo. Maradona foi disparado o melhor do bicampeonato mundial, mas isso não significou que o resto do time fosse fraco. A lenda superou a realidade e os sucessores do “pibe” pagaram o preço. Diversos talentos foram queimados porque o parâmetro era inatingível – inclusive pelo próprio Maradona, que não mais repetiu a performance do México. Enquanto seguirem mandando o craque se virar, será uma frustração atrás da outra. É como a definição clássica de idiotice: fazer tudo sempre igual e esperar um resultado diferente.

Classificado para a Copa, Messi dificilmente a conquistará. Não há tempo para a Argentina consertar tantas besteiras e dar a ele o que merece. Nem por isso se tornarão plausíveis as baboseiras que golearam as críticas justas. Cobrança é uma coisa. Recalque é outra. Como se fosse preciso detoná-lo para enaltecer Cristiano Ronaldo, ou declarar que Neymar merece o troféu breguice da FIFA. É maravilhoso quando um gênio tem a carreira consagrada erguendo a Copa do Mundo. Mas não depende só dele e a eventual lacuna não torna menos maravilhosas suas conquistas. Títulos devem premiar o melhor time, não o melhor do time. Às vezes premiam ambos. Às vezes não. Por isso futebol não é literatura romântica. Tem mais a ver com tragédia. Como um tango.

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Sobre a prisão de Nuzman e as variações na indignação dos brasileiros

A ojeriza que já foi simpatia

É curioso o clima de “ah, eu já sabia!” com a prisão de Carlos Arthur Nuzman, autoproclamado Imperador do COB, por evidências de corrupção que incluem a compra da escolha do Rio de Janeiro como sede olímpica de 2016. A curiosidade está em indagar “desde quando você já sabia?”. Mais que isso: dependendo da resposta e da função de quem responder, a pergunta passa a ser “por que não falou – ou fez – nada a respeito?”.

As evidências saltavam aos olhos muito antes da eleição carioca. Confesso que uma delas passou batida por mim. Meu alterego Danilo Mironga zombou da visita das autoridades olímpicas ao Rio, em pleno feriadão. Na verdade, já era uma forma de dar parecer positivo sobre o trânsito da cidade, num dia sem movimento. Mas não foi o primeiro sinal de algo podre no Império. Tal posto coube à classificação do Rio de Janeiro entre os finalistas, com uma protocolar nota cinco, muito abaixo da obtida pelos demais. Neste contexto, um desavisado poderia presumir que os cariocas trabalharam duro para elevar o nível do projeto. Nem tanto. Mesmo com o dinheiro torrado nos Jogos Panamericanos (supostamente um cartão de visitas), o Rio de Janeiro tinha menos de um terço das instalações prontas. Enquanto isso, a concorrente Madri tinha mais de 70 % construído. Deu a lógica – invertida.

No lugar de se perguntarem como o inacreditável aconteceu, após seguidas candidaturas frustradas (logo teríamos o slogan “A gente sempre tenta – Rio 2040”), público e até autoridades brasileiras preferiram celebrar. No caso do então Presidente da República, provavelmente dirá que não sabia de nada (talvez sua falecida esposa soubesse). O público acreditou não ser mais o “povo sofrido que luta, mas é feliz!”. Era o apogeu do Todo Poderoso Brasil, imune a crises, bombado pelo pré-sal e rumo ao topo do mundo. E a imprensa? Grande ou pequena, calou-se para não estragar o “momento histórico”. Era lindo a maior emissora do país chorar pelo repórter que deu a vida investigando traficantes no morro. Com político e dirigente, não era bem por aí. “Pensemos no progresso do país!” – devem ter dito os editores dos jornais. Era hora de Bonner e Fátima comandarem a euforia, ampliada pela cara de tacho do Rei da Espanha. Nada mais republicano…

Hoje existe um aparente predomínio da repulsa à corrupção, mas aqueles eram oooooutros tempos – como diria um locutor. Tal como o torcedor que ignora os podres do técnico quando o time ganha, os brasileiros não tinham paciência para discutir o tema. Faziam cara de enfado, como dizendo “puta coisa chata esse negócio de ética”. Foi preciso o time começar a perder de goleada para as coisas mudarem. O magistrado hoje aplaudido seria o pentelho-mor de 2009. “Por culpa desse almofadinha, vão acabar tirando a Olimpíada e a Copa do país” – sentenciariam alguns (não poucos). Não eram dias de indignação, mas de cinismo. Quem ousasse reclamar era visto como alguém que não entende p… nenhuma de Brasil. Acreditava-se, com incrível sinceridade, que o país tinha criado uma fórmula mágica em que todos, honestos e corruptos, seriam contemplados. Só mais tarde, quando o ilusionismo acabou, perceberam que o prêmio ficou nas mãos – e contas – de uns poucos, como o herói Nuzman.

Cabe ressaltar que o Senhor, Mister e Monsieur Olimpíadas não foi o único adulado. Hoje a revista Isto É ataca a corrupção, mas em 2007 elegeu Ricardo Teixeira, então ser supremo da CBF, o homem do ano. Motivo: trazer a Copa do Mundo para o Brasil – sem concorrentes. Foram necessários anos e um escândalo mundial para que a Rede Globo finalmente se encorajasse a criticá-lo, bem como seu ex-sogro Havelange. Antes disso, a saída de Teixeira da CBF mereceu homenagens do JN, que só chegara a mostrar matéria comprometedora num sábado, dia em que estão todos comendo pizza. E nem tudo é apenas passado. Neste exato momento, temos diversos outros dirigentes esportivos que assaltaram dinheiro público e clubes, mas seguem jantando nos melhores restaurantes, nas melhores mesas e sem espera.  Só serão execrados no dia em que também forem presos. Antes disso, todo mundo já sabia, mas sabe como é…

Não há país que resista desse jeito. Não se pode adotar o lema de Al Bundy e dizer que “só é trapaça quando você é pego”.  Muito menos se pode ficar contra a ladroagem apenas quando a economia vai mal e, quando a situação melhora, voltar a achar que Brasil é assim mesmo, a gente faz tudo errado e acaba dando certo. Há quem ainda trate o corrupto melhor, ainda por cima se achando o sabidão (“vai que sobra algum pra mim”). Você celebrou os poucos ouros do Brasil em 2016 – a esta altura nem deve lembrar de quem foram. Pois o ouro destas medalhas está descascando, já que até isso conseguiram avacalhar. Já o das barras de Nuzman está luzindo. Em parte, graças a você, que sabia de tudo e talvez só esteja indignado agora porque está na moda. Por enquanto.

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A Síndrome de Estocolmo tricolor

No dia seguinte à vitória a fórceps sobre o Sport, que deixou a equipe um ponto acima da zona de rebaixamento, a torcida são-paulina não se preocupou com mais uma atuação ruim. Muito menos com a constatação de que todos os últimos – e poucos – resultados positivos vieram com drama. Tratou de celebrar as defesas que impediram o empate. Fotos e vídeos homenageando Sidão (antes – e provavelmente depois – odiado) foram postados e espalhados por sites e blogs que, sem constrangimento, aproveitam qualquer situação favorável para esquecer críticas. Seria até compreensível, não fosse um padrão de anos. O são-paulino, antigamente tido como o mais exigente (chato, mesmo) dos torcedores brasileiros, foi sequestrado pela mediocridade e se apaixonou por ela. Mesmo torturado em seu cativeiro, basta uma palavra gentil para cair nos braços de sua carcereira privada.

Quando os títulos seguidos dos anos 1990 escassearam, não havia internet disseminada para impor tranquilidade. Mesmo tendo conquistado o mundo duas vezes seguidas, nenhum dirigente ou mãe de hienas falava em “soberano”. O mote era continuar ganhando tudo, inclusive para não deixar que os rivais o fizessem. Quando 1994 acabou com apenas uma Recopa e uma Copa Conmebol de segunda linha, o clima já foi de cobrança. Com 1995 e 1996 piores ainda, virou irritação constante. Mesmo os Paulistões não trouxeram otimismo duradouro. O time podia ganhar mais de cinco seguidas. Bastava uma derrota para ninguém prestar, Denílson ser um firuleiro, Raí um ex-jogador em atividade, França um pipoqueiro, Kaká uma mocinha, Rogério Ceni um loser, etc… Uma torcida insuportável que, pasmem, hoje desperta saudades até deste que vos escreve. Seria menos daninha que a sucessora – a abduzida que grita “o campeão voltou” por qualquer vitória meia-boca.

Desde 2008, o tempo passa e aumenta a falta de auto-estima do encarcerado. Não bastassem os anos achando que os fracassos eram “só uma fase” e vibrando com factoides, os são-paulinos chegaram ao cúmulo de se contentar com “derrotas dignas”. A beira do abismo virou motivo para comemorar que “time grande não cai”, enquanto rivais celebram essas “bobagens” chamadas campeonatos. A perda de noção chegou a tal ponto que o Z4 de 2017 ganhou ares de piquenique no Morumbi. O SPFC tem mais torcedores no estádio hoje que quando ganhou seus principais títulos. Conseguiram inverter o sentido de “torcedor modinha”. Antes era o que só ia na boa. Agora é o que vai na péssima. A beira do abismo virou curtição. Se cair, “melhor” ainda. O objetivo, provavelmente, será superar a média de público de Corinthians e Palmeiras quando estiveram na mesma situação. O refém não apenas beija quem o tortura, como se vangloria por ser a vítima.

Há quem resista a esta paixão. Alguns também já despertaram dela. Mas são poucos, sem articulação e alcance para libertar os outros. Parte deles sequer entende o que levou o clube a este ponto. Falam em resgatar aquilo que, na verdade, levou ao sequestro. Entre 1994 e 2018, o São Paulo terá apenas QUATRO temporadas qualificáveis como vencedoras – poupem-me de dar este status a anos com títulos secundários. Leco é apenas uma subfração destes cinco sextos. O sistema que o criou, bem como os outros raptadores, tem que ser jogado no lixo em vez de refeito. Antes que um blogueiro ou dono de site oportunista arranque as unhas do refém, fazendo-o dizer (prazerosamente) que não vive de títulos, mas de São Paulo Futebol Clube. Seria o desfecho trágico perfeito para uma situação que, pois sim, começou com uma esdrúxula “invejinha” do “bando de loucos” de 2007. Minha sequestradora é mais gostosa que a sua…

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Votar é bom, mas tem que dar trabalho

Sobre a importância de mudar a mentalidade do torcedor, se ele quiser participar da vida política do clube sem ser feito de joguete populista

Uma das assertivas crescentes dos últimos anos é que o torcedor precisa ganhar mais espaço no clube. Não o de organizada, mais preocupado com sua entidade – e os benefícios correspondentes. A ideia é trazer o sócio torcedor ao cenário eleitoral. Sugestão esta, por sinal, que este colunista lançou em 2005, também no extinto Canal 1000. Porém, mesmo as concepções mais bonitas devem ser repensadas. Estará o eventual torcedor-eleitor preparado para proteger sua paixão de candidatos oportunistas? Se analisarmos diversos exemplos, concluiremos que não. Longe disso. Vide o que aconteceu com o Internacional, primeiro clube a abraçar a iniciativa no caso concreto. O torcedor na política do clube pode não ser o combustível para empurrá-lo, mas incendiá-lo.

Infelizmente, existe uma certa condescendência com a visão restrita do torcedor. Aceita-se como natural que seu objetivo seja só ganhar, independentemente dos meios. Quando o Corinthians firmou parceria com a suspeitíssima MSI, a reação inicial de seus torcedores foi de euforia. Se questionados, a resposta invariável era “não importa de onde vem o dinheiro; torcedor quer saber é de títulos!”. Dois anos depois, a conquista de 2005 foi trocada por dívidas e um rebaixamento. Lição aprendida? Nem tanto. O mesmo torcedor deu de ombros às igualmente suspeitas fontes do seu estádio. Até porque o Brasil vivia tempos em que era “puta coisa chata esse negócio de ética”. Achavam que havia grana para todos, inclusive os corrutos. Eis que, hoje, temos um país em crise e um Corinthians, mesmo nas cabeças, sem saber como pagar pelo estádio e esperando (mais) um favor do governo. Tudo com a benção de seu torcedor, que deixou de lado os “entretantos” para só pensar nos “finalmentes”.

Não vejam isso como peculiaridade dos corintianos. A mesma postura pode ser contemplada em 100 % da concorrência. Inclusive nos que tentam criar juízo. O Botafogo, em período de rara lucidez, chegou ao fundo do poço com iniciativas desastrosas, como a vinda de Seedorf num “plano de marketing” que, como de costume, não gerou um décimo do prometido. Quantos botafoguenses foram contra desde o início? Provavelmente, meia dúzia. Neste caso, não era nem questão de onde vinha o dinheiro, mas de onde não vinha. Mas não pensem que a postura compreensiva, depois de outro rebaixamento, deve durar muito. Com a eliminação após boa campanha na Libertadores, logo virão pressões para gastar com estrelas além da solitária. Como? “Sei lá, virem-se!!!” – será a provável réplica. Enquanto estiverem do lado de fora do campo político, a diretoria poderá suportar. E se votassem? Os anseios não teriam como ser ignorados. A estabilidade voltaria a ficar por um fio – de algodão.

Há muitos outros casos, mas vou falar do clube que efetivamente acompanho. O São Paulo, com finanças já comprometidas, iniciou a temporada contratando Lucas Pratto por valores que, mesmo condizentes com seu futebol (algo que agora se discute), extrapolavam o orçamento. Qual a reação da torcida? A mesma dos corintianos do segundo parágrafo. O que vale é ter craque no time. Quando uns poucos criticaram o negócio, saíram-se com o clichê que este colunista tanto ama: bradar que “o futebol está muito chato”. Mesmo no FOMQ, fórum que se caracteriza por uma visão não-passional, surgiram “contas de padeiro” dando a compra como viável. Well… A padaria deve ter fechado, porque o tricolor paulista teve que preencher o resto do elenco com jogadores baratos e duvidosos, além de se desfazer de vários atletas. Não é por menos que, pelo segundo ano consecutivo, seu torcedor terá que se contentar (se tanto) em dizer que “time grande não cai”. Imaginem se votasse.

Há que ficar claro que, quando me refiro a esta postura da torcida, vale para todos os padrões econômicos e culturais. Não é porque o torcedor frequentou determinada escola, ou tem determinada quantia no banco, que pensa de forma diversa. Justamente por isso, não acredito que a forma de contornar este problema seja, simplesmente, aumentar o preço para que o sócio torcedor possa votar. É preciso ir muito além. Se quiser realmente dar um passo adiante e revolucionário, o torcedor tem que trocar de mentalidade. Menos autoindulgência com seu desconhecimento, mais aprendizado com a experiência. Seu time se afundou na irresponsabilidade há cinco anos? Não aplauda se começar a fazer de novo. Ou então não pense em participar dos rumos do clube. No lugar de trazer oxigênio aos ultrapassados dirigentes e conselheiros, acabará sendo asfixiado por eles. Pior: nem poderá sair reclamando do “que fizeram com o time”. Você fez junto.

O desafio está lançado. Como naquele filme dos anos 80, em que o protagonista de Kevin Bacon dizia que, se ele fosse lutar por um baile, o amigo precisava aprender a dançar. Se quiser entrar na dança política no seu clube de coração sem sair do ritmo, o torcedor vai ter que aprender a pensar. Aliás, já que a coluna chegou até aqui, que tal sairmos do futebol e sugerirmos ao eleitor que faça o mesmo? Depois não adianta sair reclamando do “que fizeram com o Brasil”. Você fez junto…

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CINCO DETONAÇÕES FAVORITAS DA IMPRENSA ESPORTIVA!

TOP FIVE DA BOCA – E TECLA – MALDITA

Os leitores devem ter notado que não sou fã do jornalismo esportivo brasileiro de hoje. Tirando poucas e honrosas exceções, temos um grande gosto coletivo pelo lugar comum. Algumas práticas são tão disseminadas que não se resumem a um ou outro veículo. Em homenagem a minha antiga coluna Canal 1000, do Fórum O Mais Querido, apresento aos leitores do No Ângulo os…

CINCO DETONAÇÕES FAVORITAS DA IMPRENSA ESPORTIVA!

5 – posse de bola – não é novidade que só ter a bola não significa que seu time ganhará. Mas, quando ele perde, a crítica das resenhas mais parece um deleite, como se estivessem torcendo para acontecer. Mágoa embutida por resultados como o 7 a 1 da Copa do Mundo? Talvez não com os placares em si, mas com as críticas de torcedores à própria imprensa por não antever os vexames. As entrelinhas realmente sugerem um tom revanchista de “vou me atualizar pra quê? Chega de Guardiola daqui, Alemanha dali… O que vale é bola na rede, p…!”. Claro que isso muda quando o derrotado é o time de simpatia do jornalista. Aí o vencedor deixa de ser “eficiente” para se tornar praticante do “antifutebol”, jogar por uma bola, etc…

4 – “ótima” geração belga – é verdade que o ranking da FIFA forçou a barra, mas não precisa salivar quando a seleção da Bélgica atua mal. Graças a tamanha ojeriza, o espectador ou leitor desavisado acha que são mesmo um bando de enganadores. Pelo contrário. Jogadores como Hazard e De Bruyne podem ser colocados no rol dos vinte melhores da atualidade, sem exageros. Outros, como Lukaku, são bem quistos nos maiores clubes e seguem evoluindo. O goleiro é excelente, o que já é tão costumeiro quanto o chocolate local. A geração é certamente diferenciada, sendo que eventual insucesso na Rússia não provará nada além do óbvio: construir uma potência do futebol requer mais que talento reunido. Requer tempo. O basquete feminino brasileiro teve sua geração gloriosa formada no fim dos anos 1970, com Hortência e Paula. Só levaram quase vinte anos para chegar ao título mundial. Que tal menos nariz torcido e mais informação?

3 – mata-mata – quarta-feira, disputa de Copa do Brasil, é a deixa habitual para alguns formadores de opinião, parte deles milionários por causa de lucrativas polêmicas, lançarem raios de fúria contra o campeonato de pontos corridos. “Cadê a emoção??????” é o mote, seguido por outras pérolas populistas. Porém, reparem que a campanha costuma ocorrer antes de os jogos começarem. Depois não dá, porque os mata-matas nacionais normalmente são um porre. Na maior parte do tempo, é só chutão e chuveirada na área. O medo de errar fala muito mais alto, até porque ninguém quer ser o personagem do Top 1 – ver abaixo. Em vez de batalhas épicas, o espectador recebe a cura da insônia. Mas é um detalhe que preferem não comentar. Pior: na fase seguinte, lá vêm eles de noooovo…

2 – técnicos estrangeiros – a coroação da xenofobia inconsciente ou descarada. A técnica de implosão é mais manjada que Cuca e lateral na área. Primeiro, os comentaristas dão lições de moral e imparcialidade, decretando ser preciso dar tempo ao novo treinador. Um mês depois (se tanto), trocam a paciência de Jó pela de Judas. “Tudo bem que ele precisa de tempo, mas já deveríamos ver sinais de progresso!!!!”. A tiracolo, os jornais e portais lançam matérias mostrando que o aproveitamento é pior que o dos colegas brasileiros, além das cutucadas “respeitosas” defendendo o prestígio a quem sempre ralou por aqui. Tão repetitivos e previsíveis quanto o Coiote caindo do abismo. Com a diferença óbvia de que este cai de mentirinha e é engraçado.

1 – erguer e derrubar jogadores – o campeão da lista passaria batido, não fosse este colunista um chato de galochas. Quando programas, blogs e colunas encherem a bola de um certo jogador (inclusive exigindo sua convocação), pegue seu calendário e marque um espaço de três meses. Até o fim do período, você verá ou ouvirá os mesmos programas, blogs e colunas destruindo o mesmo atleta. “Mascarou!”; “A seleção fez mal a seu futebol!”; “Vai ver, nunca foi tudo isso!” são os clássicos. Mas a crueldade máxima é que, não raro, este mau momento é provocado pelos próprios jornalistas. Enfurecidos com alguma picuinha, passam a dizer que o alvo está em má fase. Em questão de duas ou três partidas, a notícia martelada entra em sua cabeça, até que as atuações realmente despencam. Vingança de jornalista esportivo contrariado é pior que cônjuge traído. Tem que ir ao programa, responder a tudo sorrindo e não esquecer de dar bom dia, boa tarde ou boa noite. Senão eles choram. A torcida e o boleiro também…

 

Leia também: Vamos falar o de sempre? Eba!!!!! Só que não…

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Vampeta

Majestoso: “Clima de clássico” ou baixaria?

Clássico é clássico, trolha é trolha – ou “para, para, para!”

Não sou fã de saudosismos, mas há posturas do passado que poderiam ser retomadas. Uma delas é a forma como ídolos se relacionavam com os adversários. Tenho saudades, pois sim, de tempos em que os jogadores favoritos dos rivais eram temidos pelo desempenho em campo, porém respeitados na mesma medida. Não apenas pelo que jogavam, mas porque sabiam deixar as provocações (especialmente as de nível duvidoso) para os torcedores. Isso num tempo em que não se falava em profissionalismo como o biscoito que “justifica tudo”. Mais que um gesto profissional, era sinal de que respeito e boas maneiras não precisam ser deixados de lado em nome da suposta “competitividade”.

Por isso um Zico dava calafrios por suas atuações no Maracanã, mas não causava ódio aos vascaínos. O mesmo se via com Roberto Dinamite e os rubro-negros. Assim como Sócrates me fez chorar na infância sem jamais menosprezar o São Paulo, conduta que Raí retribuiria fraternalmente quando levou os pequenos e grandes corintianos às lágrimas. Neste contexto, eram realmente bons tempos. O torcedor não precisava de campanhas pela mídia, porque sabia diferenciar rivalidade de inimizade. Muito disso se devia, pois sim, ao espírito esportivo daqueles que admirava. De maneira inversa, a transformação de rivais em inimigos muito tem a ver com o império da boca suja que se ergueu depois.

São Paulo x Corinthians, clássico que terá mais uma edição neste domingo, talvez seja a mais clara e triste amostra involutiva. Torcedores se provocando é comum desde os tempos do “silêncio na favela” e “todo v… que eu conheço é tricolor”. Se não eram libelos contra o preconceito, ao menos se restringiam a arquibancadas, cadeiras e gerais. Mas o patético entrou em cena quando dirigentes e jogadores se juntaram aos coros. Pior: não raro com incentivo e parceria de jornalistas. Aquilo que se restringia ao fim de noite, no canal de audiência mais próxima do traço, virou notícia a qualquer hora e em qualquer emissora. Com a internet, mais ainda. Querem a cereja podre? Agora isso é considerado “clima de clássico”, como se antigamente os torcedores fossem à ópera.

Ouso dizer que o processo teve seu agravamento a partir de 2002, com uma sucessão de baixarias mútuas. O passo adiante (ou abaixo) provavelmente foi a entrevista em que Vampeta se referiu aos são-paulinos como “bambis”. Não contente com o suposto ato falho, afirmou que o meia Ricardinho, recém-chegado ao Morumbi após longa novela, era um dos que usavam o termo no Parque São Jorge – alegação que, provavelmente, queimou o filme do então tricolor no grupo (bem mais que seus lendários vencimentos). Dando apoio ao jogador do clube, o diretor Roque Citadini emendou que o estádio do SPFC era salão de festas corintiano. Ironia do destino ou não, no ano seguinte o momento vencedor do Corinthians deu lugar a seguidos fracassos.

Quando a sorte virou, foi a vez da vingança. Marco Aurélio Cunha passou a tirar sarro da má fase rival, mostrando um passe de metrô como passaporte de corintiano. No elenco tricolor, Souza foi mais valorizado pela língua que pelo futebol. Mais alguns anos e tivemos novo reverso da fortuna, com o aposentado Vampeta, na qualidade de “gestor”, vendendo ingressos de visitante caríssimos para Audax x São Paulo e quase de graça a corintianos. O ex-clube foi campeão. Já o empregador terminou rebaixado. O São Paulo respondeu proibindo Neto de apresentar seu programa em camarote no Morumbi. O ídolo rival retrucou ameaçando “revelar” coisas que, como suposto jornalista, nunca deveria ter ocultado. Larry, Moe e Curly teriam vergonha de tanto pastelão.

Agora eis que Alexandre Pato, um fracasso no Corinthians e bastante irregular no São Paulo, aparece comendo pé de galinha em rede social. Mesmo desmentindo que tenha algo a ver com os corintianos, já angariou curtições e ódios de torcedores alucinados. Alucinação esta que deve ir ao ponto de, caso leiam esta coluna, resmungarem que “o futebol está cada vez mais chato”, lugar comum do momento. Legal mesmo é ver estádio com uma torcida só, porque nenhuma autoridade quer gastar contingente e tempo servindo de babás de gente tão divertida. Graças a estas pessoas cativantes, acharam uma desculpa para promover a segregação em vez da tolerância. Pessoas estas que, pois sim, poderiam ter vivenciado outros valores se o exemplo viesse do campo.

Seria salutar se, com Juvenal Juvêncio sepultado e Andrés Sanchez caído em desgraça, a ausência destes presidentes (também fomentadores da inimizade infantiloide) servisse como oportunidade para rivais unirem esforços. Existem, nos dois times, quem saiba unir futebol competitivo e respeitoso. Nem é preciso dar as mãos. Basta não querer ganhar o torcedor imitando o pior deste último. Se o são-paulino quer odiar o corintiano e vice-versa, deixem que fiquem no vácuo até se sentirem constrangidos pela própria babaquice. Clássico não precisa de bobos e histéricos para ser clássico. Do contrário, não seria Majestoso, e sim Programa da Márcia Kleber Ratinho Rocha. Desculpem se esqueci algum rei da baixaria. Nem sempre consigo desagradar a todos…

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Sobre a obsessão brasileira por Libertadores

Só o mundo é o bastante 

A quatro ou três dias de disputarem o jogo decisivo por uma vaga em semifinais de Libertadores, os clubes envolvidos atuaram com reservas no Brasileirão. Sendo dois deles os mais próximos do distante líder, a diferença na tabela voltou aos dois dígitos. Naturalmente, também voltaram as críticas ao desprezo pela disputa do título nacional mais importante. Mas, afinal, quão importante é um título nacional quando a verdadeira obsessão do torcedor brasileiro vai além da própria Libertadores? O que conta é o mundo e nada mais, como quase cantaria Guilherme Arantes.

É apenas por isso que o título sul-americano vale. Portanto, também está valendo qualquer passaporte para a competição. Se vier um título no meio (brasileiro, Copa do Brasil ou irmã da Gretchen), melhor. Mas, no fim, o que importa “é quarta-feira”, como cantam as torcidas para lembrar “carinhosamente” que não perdoarão eliminações na “reta final” para a conquista do planeta. Sim, do planeta. Desde quando brasileiro se preocupa em juntar esforços para ser apenas o melhor do continente? A Argentina tem mais títulos de Copa América e isso nunca tirou o sono da seleção brasileira e seus torcedores – inclusive, ou principalmente, quando a prioridade do torcedor brasileiro era a seleção.

Não se iludam. Sem o “golden ticket” para o Japão ou Oriente Médio, a torcida do seu time estaria pouco se lixando para a Libertadores. O torneio seria o que o Mundial é para os europeus: importante, mas sem problema algum se deixasse de existir. Em nenhum outro idioma e sotaque o termo “melhor do mundo” soa mais doentio que quando pronunciado por brasileiros. Não apenas no futebol. “Fulano é bom no biribol, mas é o melhor do mundo? Não? Então porque estamos perdendo tempo com ele?” A chance de um medalhista olímpico de ouro ser lembrado um ano depois já é pequena. Imaginem a de uma prata ou bronze. É Brasil “über alles” (na pior das traduções), ou nada.

Claro que Libertadores ainda é o único caminho atual (a não ser que a FIFA emplaque alguma fórmula populista, como a do Mundial de 2000) para chegar ao topo do mundo. O que nos leva à principal indagação desta coluna: o que acontecerá quando a torcida finalmente se der conta de que as chances de bater o campeão europeu são cada vez mais ínfimas? Vai continuar torcendo loucamente para seu time apanhar de Real Madrid, Barcelona (ou um time que bateu os dois) em dezembro? Um presente de grego em véspera de Natal.

Hoje, por mais que o torcedor já saiba da diferença técnica (salvo policarpos achando que o campeão espanhol suaria sangue no Brasileirão), o retrospecto ainda anima. Desde 2005, apenas um dos quatro brasileiros perdeu a final do Mundial – o Santos de Neymar, naquela surra histórica contra seu futuro clube. Nas outras três, em suados 1 a 0, deu Brasil. Sim, os outros brasileiros nem passaram pelo representante africano. Sim, todos os outros sul-americanos perderam. Sim, apenas um clube marcou mais de um gol contra o europeu – e, ainda assim, era o local japonês. Mas o que move a cabeça do torcedor é o 3 a 1 a favor. “Deixou chegar…”, como dizem.

Mas virá a hora, e pode ser daqui a três meses, em que um brasileiro terá que encarar o Real Madrid. Desta vez, sem tempo de preparo específico algum (inclusive para planejamento de viagens de torcedores), já que a Libertadores acabará um mês antes. Vamos supor que dê a lógica e o clube espanhol passeie em campo, como o rival catalão fez em 2011. Vamos supor também que a história se repita em 2018, com mais vida mansa do Velho Continente. Até quando o brasileiro seguirá os preceitos de Rocky Balboa e continuará avançando enquanto leva porrada? Não desistir nunca era lindo na propaganda ufanista, mas na vida real não demora muito para a persistência virar conformismo. Para cada Dona Maria dando lição de vida no JN, há milhares (milhões?) de compatriotas deixando pra lá.

Neste contexto, não se espantem se em pouco tempo acontecer o inverso: quadrifinalistas de Libertadores entrando com seus times principais no campeonato brasileiro e equipes mistas na quarta-feira. Jornalistas e torcedores acharão boas desculpas para aceitar, dizendo que “Libertadores é muito bagunçada”, “rola doping”, “tem mais é que boicotar essa estrutura capitalista opressora da FIFA”, etc… Deixem que argentinos, uruguaios, colombianos e outros sejam massacrados anualmente pelos times da “geração Playstation”. Só assim, na base da conveniência, para o país realmente se tornar humilde. Provisoriamente, é claro. Ainda estarão esperando que, num ano desses, apareça um time muito acima da média e restaure a crença na superioridade do produto canarinho. Projeto Tokyo is back!

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Formado em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero. Redator, repórter, pauteiro e editor-assistente da editoria de Esportes da Folha. Trabalhou também na Folha da Tarde, Agora São Paulo, BOL, AOL e UOL. Paulistano, acompanha de perto o futebol desde a época em que os camisas 10 dos grandes times paulistas eram Pelé, Rivellino, Gérson/Pedro Rocha, Ademir da Guia e Dicá.

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Jornalista há 19 anos, já cobriu Copa do Mundo, NBA, Nascar, Pan, Mundial de vôlei, Copa do Mundo de ginástica, Libertadores e as principais competições do futebol nacional. Começou no A Gazeta Esportiva, passou pelo site do Milton Neves, Agência Estado, Agora São Paulo, Terra, ESPN e está na TV Gazeta. A trabalho, conheceu 8 países, 18 estados do Brasil e mais de 100 estádios.

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