Atualização dos Direitos de TV no Brasil. Mas e se fosse como na Inglaterra ou Itália?

Créditos da imagem: Reprodução / Trivela

O final da temporada e as duas conquistas do Flamengo trouxeram à tona o tema da divisão dos valores distribuídos pelos direitos de TV no Brasil. Muito se fala do benefício que a TV Globo concede ao Flamengo e que isso levou o clube ao cenário atual de conquistas.

Já falei sobre este tema, e todos os anos existe um responsável pelos títulos, que normalmente não é o trabalho dos clubes vencedores, mas alguma ação externa que gera campeões. Vamos lembrar que no tricampeonato do São Paulo se dizia que o clube, em melhor condição financeira, aliciava atletas e por isso formava equipes melhores. Depois veio o Fluminense da Unimed, o Cruzeiro do gasto desenfreado – “Como competir contra uma equipe que gasta mais do que pode?”, diziam – e o Corinthians da Globo e da Caixa, o Palmeiras da Crefisa e o Flamengo do cheirinho virou o time da Globo.

Independente disso, vamos atualizar o que suponho será a distribuição do dinheiro vinda dos direitos de TV. Mas mais que isso. Vamos fazer uma comparação com duas ligas europeias que têm distribuição em modelos diferentes. Faremos o exercício do “E se…”. Ou seja, “E se o dinheiro da TV no Brasil fosse distribuído como na Premier League (Inglaterra) ou na Serie A (Itália)?”. A partir daí comparamos com o Brasil.

Antes disso vamos lembrar como é a divisão do dinheiro que vem da TV nas 5 maiores ligas europeias e no Brasil:

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Acima temos uma caracterização geral, e observa-se que na Premier League há menos partidas transmitidas que nas demais. O que a liga faz é excluir na tela as partidas de menor interesse na transmissão local, deixando o total de partidas para a transmissão internacional. Enquanto isso, nas demais ligas todas as partidas são transmitidas.

Outra diferença está nos modelos de negociação, uma vez que no Brasil o modelo é individual, direto entre veículo e clube, enquanto nas ligas europeias as negociações são coletivas.

Por fim, vemos que no Brasil e na Espanha há partidas transmitidas pela TV Aberta, e sabemos que no Brasil este meio de transmissão ainda é forte, enquanto na Espanha são poucas partidas, ainda que possam escolher entre os jogos mais interessantes.

Vamos então aos modelos de distribuição:

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Há formas para todos os gostos. Na Europa há uma tendência a que parte relevante seja distribuída de forma igualitária entre os clubes. Note, por exemplo, que na parcela de transmissão internacional da Premier League, a maior parte é integralmente distribuída de forma igualitária. Mas a partir da renovação deste ano os 6 maiores clubes alteraram a regra e passaram a receber uma parcela adicional em relação aos demais, por serem os clubes que chamam audiência e dão valor à liga. É uma tendência que deve seguir para a distribuição dos direitos locais.

Na Premier League, conforme vemos na tabela abaixo, há distorções que têm incomodado os clubes de maior relevância. Note que os maiores clubes recebem cerca de 5 milhões de libras por partida transmitida, enquanto o Southampton, com apenas 8 partidas transmitidas localmente, recebeu mais de 12 milhões por jogo.

Isto, inclusive, tem sido motivo de preocupação na liga, pois os clubes da Championshiop, a segunda divisão local, adotam gestões que vão além do limite razoável de gastos na busca pela vaga na Premier League. Quando alcançam o objetivo usam parte do dinheiro para colocar as contas em ordem, mas quando não dá certo, o clube entra em profundas dificuldades. Clubes como o Burnley e o Brighton chegam a ter 85% da receita atrelada à TV.

Valores ainda consideravam o contrato anterior de direitos internacionais (Clique na imagem para ampliar)

Também há casos como o Alemão, onde a Bundesliga distribui valores altamente relacionados ao desempenho esportivo. No contrato local, 70% são distribuídos pelo desempenho dos últimos 5 anos, onde a temporada anterior tem mais peso que as demais, cujos pesos vão diminuindo até a 5ª temporada precedente.

Mas este é um modelo que tem recebido reclamações dos clubes menores, de forma na que temporada atual o Bayern Munich receberá € 113 milhões e o Padoborn, recém-chegado da segunda divisão, receberá € 29,5 milhões, ou seja, 3,8 vezes mais.

Outra informação importante: o modelo de distribuição de direitos de TV na Itália é definido por lei. Existe a chamada Lei Melandri, que regula anualmente o modelo de distribuição. Ou seja, é o Estado participando de um processo privado.

Na Espanha o modelo também é regulado pelo Estado, através de lei, e que veio na esteira da reorganização financeira dos clubes, a partir da qual parte da receita vinda da TV paga os valores de impostos renegociados.

Nas demais ligas a distribuição é decidida pela liga e pelos clubes.

Inclusive, a questão da distribuição mais equilibrada do dinheiro da TV tem sido um dos pilares da insatisfação dos grandes clubes europeus, que recebem menos do que atraem de público e interesse e mesmo assim isso não tem se revertido em maior competitividade das ligas nacionais. Mas este é um tema para outro artigo.

Distribuição da TV no Brasil

A esta altura do campeonato todo mundo já sabe como é a distribuição da TV no Brasil, e inclusive está detalhado acima na tabela.

A partir das bases e de informações obtidas junto à imprensa, como artigos dos jornalistas Rodrigo Mattos, Rodrigo Capelo e Marcelo Rizzo, além de informações de transmissões publicadas no site da CBF, atualizei a expectativa de valores recebidos exclusivamente da TV.

Há algumas premissas e ajustes, como o de valores de TV paga entre Globo e Turner, e potenciais diferenças nos valores de Pay Per View. O valor original do PPV previa distribuição de R$ 650 milhões, mas obtive informações de que o valor efetivo é de R$ 545 milhões, adicionados das parcelas fixas que 3 clubes possuem (Flamengo, Corinthians e Palmeiras). Logo, o valor final deve chegar a R$ 613 milhões, ou seja, os R$ 545 milhões vindos dos assinantes mais uma parcela de R$ 69 milhões vindos da parcela fixa.

Mas o PPV é um aspecto que precisa ser melhor explorado. A informação original é de que o valor total serviria primeiro os clubes que têm mínimo garantido, e o que sobrasse serviria aos demais. Para se ter uma ideia da diferença, no lugar dos R$ 545 milhões distribuídos, os 17 clubes sem mínimo dividiriam 230 milhões.

Fica aqui, então, uma interrogação. Este contrato pode alterar completamente os dados apresentados.

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Algumas condições observadas e premissas utilizadas:

  • TV Fechada Turner: consideramos recebendo valores divididos por 6, excluindo o Fortaleza, que tinha contrato diferente (R$ 9 milhões anuais fixos);
  • Desempenho na TV Fechada (SporTV) e Aberta (Globo): calculados separadamente para quem assinou as duas plataformas e para quem assinou apenas a Aberta, uma vez que aparcela da Turner de desempenho foi distribuída igualmente entre os 6 clubes.

Analisando os dados, a diferença entre Flamengo e Corinthians é basicamente o desempenho no campeonato, enquanto o Palmeiras, com melhor negociação, atinge valor bem acima do São Paulo.

Sim, há diferenças grandes entre os dois – até os três – primeiros e os demais clubes. Mas o terceiro só atingiu este patamar em função da sua capacidade de negociação. Precisamos lembrar que esta é uma questão que está ligada diretamente à capacidade dos clubes de negociar. Quando a negociação coletiva foi implodida em 2011, perdeu-se junto a capacidade de equilibrar os valores. E na última renegociação, em 2016, mantiveram a mesma ideia.

Não podemos ignorar que parte dessa diferença está associada ao pagamento de luvas aos clubes, que precisavam de dinheiro na frente para contratar atletas na negociação de 2011. Na de 2016 o dinheiro foi usado para resolver atrasos. Ou seja, para sanear questões de curto prazo os clubes aceitaram diferenças de longo prazo.

Onde errei

No final do ano passado trouxe uma estimativa de valores que os clubes deveriam receber da TV em 2019, deixando claro que um dos aspectos mais relevantes era da mudança na forma de pagamento, que alteraria demasiadamente a gestão do fluxo de caixa dos clubes.

Isto se confirmou, mas os valores vieram diferentes. Os principais motivos foram (i) expectativa de maior concentração de PPV em Flamengo e Corinthians, (ii) expectativa de maior número de transmissões desses clubes nas TVs Fechadas e Aberta e (iii) inclusão das placas dos estádios na conta de Flamengo e Corinthians, como forma de comparar a 2018.

No final, ao pagar mais pelo PPV, a Globo concentrou no sistema os jogos dos 4 clubes com maior % de adesão, retirando-os da TV Fechada.

Momento “E se…”

Então, fizemos a simulação utilizando os modelos da Premier League (Inglaterra) e da Serie A (Itália). A escolha desses dois modelos está associada à diferença de conceitos entre eles. Enquanto na Premier League a ideia é de privilegiar o equilíbrio – que vem sendo questionado pelos maiores – na Série A busca-se privilegiar o desempenho. Há uma parcela equilibrada, mas há também parcelas que medem presença em público e desempenho ao longo do tempo, como vimos lá na primeira tabela.

Modelo Premier League

O exercício realizado foi pegar o valor total pago a título de Direitos de Transmissão do Campeonato Brasileiro de 2019 e distribuir nas mesmas condições da Premier League. Vocês verão o detalhamento por perfil de distribuição, o valor total e na sequência a diferença entre os valores totais nos dois modelos:

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Agora, colocando em ordem a diferença, temos o seguinte gráfico:

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Veja que Vasco, São Paulo e Grêmio recebem quase R$ 20 milhões além do que receberiam se o modelo adotado fosse igual ao inglês, enquanto o Fortaleza recebe R$ 46 milhões abaixo do que seria entregue pelo modelo da Premier League.

Antes de qualquer avaliação, vamos para a comparação utilizando a Serie A italiana como referência.

Modelo Serie A

O modelo italiano contém mais elementos de desempenho histórico, ainda que mantenha uma parcela importante de valor fixo. Entretanto, substitui a audiência por presença de público em campo:

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No caso da parcela distribuída pelo desempenho histórico, utilizei o ranking da CBF, que não é perfeito porque utiliza outras competições, mas é a melhor proxy disponível, por ser impessoal e ter um critério já definido.

Ordenando os clubes por diferença entre Brasil e Itália, vamos ao gráfico:

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Note, por exemplo, que o Vasco recebe R$ 24 milhões além do que receberia se adotássemos um modelo como o italiano, enquanto o Bahia recebe R$ 22 milhões abaixo do que receberia.

Vamos então colocar lado a lado as diferenças e observar se há grandes alterações entre os modelos:

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A comparação é interessante. É possível observar alguns grupos claros, na prática 4 grupos bem definidos.

Na primeira parte do grupo temos Flamengo, Corinthians e Palmeiras como clubes que ganham muito mais no modelo brasileiro que nos modelos europeus de referência.

Na sequência, São Paulo, Grêmio e Vasco recebem mais no Brasil que receberiam nos modelos inglês e italiano.

Daí temos um grande grupo cujo modelo é indiferente. Pertencem a ele Internacional, Cruzeiro, Atlético, Fluminense e Botafogo. A diferença pode ser um pouco maior ou um pouco menor, mas não chega a ser algo que muda de forma relevante a realidade dos clubes. Como o valor de referência foi de R$ 10 milhões anuais, significa pouco mais de R$ 800 mil mensais. Claro que para quem tem pouco qualquer valor ajuda.

E então temos o grupo que receberia muito mais caso os modelos fossem o inglês ou o italiano. São eles Santos, Bahia, Goiás, Ceará, Fortaleza, Athletico, Chapecoense, Avaí e CSA.

E o que isso significa?

O primeiro tema a ser abordado é que os modelos são diferentes porque as características de transmissão e os modelos de negociação são diferentes. Enquanto alguns países possuem leis que regulam o tema, em outros a negociação e modelo de distribuição é definido pelas ligas e pelos clubes.

Então, a questão de dizer que um é mais equilibrado ou justo que outro é mera escolha. Afinal, enquanto o inglês é definido pelos clubes, espanhóis e italianos seguem uma lei. O que isso tem a ver com justiça? Nada. Tem a ver com a decisão de um grupo, que nos casos são diferentes, possuem expectativas e tem objetivos diferentes.

Volto ao que escrevi anteriormente: as divisões tão igualitárias na Europa estão gerando descontentamento nos grandes clubes, que carregam as ligas. Inclusive porque não garantem mais competitividade, mas sim uma corrida desenfreada para se alcançar a primeira divisão da Liga e poder fazer dinheiro. Não é à toa – e volto nisso nos próximos dias – que as conversas sobre Liga Europeia estão cada dia mais fortes.

Logo, a comparação serve para organizar os debates e ajudar a quem sempre diz que o modelo A é melhor que o B. Nesse sentido, observa-se que no Brasil há 3 clubes que recebem mais que seus pares europeus, mas há entre 8 e 9 clubes que recebem muito menos, enquanto uma parcela de clubes de grande torcida recebe de maneira proporcional aos pares italianos e ingleses.

Dá para ser menos concentrado? Dá.

Dá para ser mais equilibrado? Também dá.

Encerro por aqui deixando duas perguntas aos torcedores: i) vendo esses números, seu problema é com o quanto seu clube recebe ou com quanto o adversário recebe? ii) Se os times organizados, mas regionais, recebessem os mesmos valores que seu clube, qual poderia ser a situação atual?

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