Alguém tem que ceder – ou perder

Créditos da imagem: Richard Callis/FotoArena/Estadão Conteúdo

Imaginem uma luta entre adversários que tomam a iniciativa e buscam a luta franca. Normalmente um terá mais chances de chegar primeiro ao queixo do outro. Os lutadores sabem disso. Os técnicos sabem disso. Assim, precisam de um plano B, especialmente se o seu pupilo for aquele que, provavelmente, vai apanhar se fizer o seu habitual. No futebol é assim. É uma fantasia acreditar que dois times ofensivos, de posse de bola e pressão na saída se enfrentarão com 50 % das ações cada. Se acontecer, é exceção. O normal é que um prevaleça seu estilo e o outro adapte seu jogo para competir. É isso ou arriscar o queixo e tudo o mais. O Grêmio arriscou e saiu feliz por não haver derrota “por pontos” no campo.

Jogando em casa, o técnico gremista confiou que seu time levaria a melhor no puro confronto. Não levou. O Flamengo se adiantava com mais compactação. Tinha um ritmo mais intenso. No geral, jogadores mais fortes e rápidos. Era preciso, no mínimo, que o mandante entrasse com uma alternativa tática a ser acionada em caso de dificuldades. Não houve. O Grêmio passou 45 minutos sem adaptações. Deu sorte com o VAR. Não apenas pelas anulações de gol, mas pela demora do árbitro. As longas pausas afetaram o ritmo rubro-negro. Tivesse o jogo seguido na mesma toada, não haveria vídeo que salvasse o imprudente tricolor gaúcho. No intervalo, Renato enfim cedeu à humildade e fez ajustes. Seu time conseguiu jogar no segundo tempo – contando, ainda, com as várias interrupções demoradas que permitiam respirar. Resta saber se ficou a lição.

São raras as equipes que nunca – ou quase nunca – precisam adaptar seu futebol ao do adversário. Mais difícil é saber quem terá que fazer isso em duelo inédito. Foi a primeira vez que o Grêmio enfrentou esse Flamengo de Jorge Jesus – e vice-versa. Os técnicos escolheram a opção da natureza. Dois animais ferozes partiram um pra cima do outro e, agora, todos sabem quem leva vantagem se isso acontecer de novo. É quando realmente começa a disputa tática. O treinador do time dominado precisará alterar sua normalidade. Buscará antídotos para quebrar o ritmo do Flamengo, pois não dá sempre para contar que as paradas de jogo o façam. Por sua fez, Jesus deverá especular as possíveis estratégias gremistas. Grande parte dos técnicos-sensações cai em desgraça depois que adversários aprendem a enfrentá-los. O desafio do português é mostrar que não é um deles.

Além da necessidade, o técnico gremista terá que conviver com um choque. Não apenas ele acreditou, como muitos (eu, inclusive) acreditaram ser expoente de um futebol próximo ao padrão (não necessariamente o nível, bem entendido) praticado pelos grandes europeus. O jogo de ida mostrou um longo caminho a percorrer. Assim como a eventual chegada de um europeu (ou com trabalho europeu) defensivo de qualidade poderia mostrar que Carille não é tão avançado neste estilo. Renato e Carille são sopros de modernização em suas propostas, assim como alguns poucos. Mas há muito o que aprender. Todavia, ambos são inteligentes. É o maior teste do gaúcho em sua fase pós-2016. Não é que precise ganhar para passar. Sua prova de qualidade é buscar a vitória sem apenas fechar a casinha e jogar por uma bola. Ou então, se vencer assim, será apenas uma “decepção bem sucedida”.

Registre-se que, se vencer a semifinal e a final, o Flamengo passará pelo mesmo problema de seu adversário atual. Se enfrentar o Liverpool sem adaptações, vai receber de volta os 3 a 0 de 1981, com juros e correção ilimitada. Klopp é o mestre maior deste estilo vertical. O Liverpool não tem os melhores jogadores do mundo (só o goleiro e o zagueiro), mas é o melhor time do mundo. A torcida adversária vai se contentar (é claro) com uma vitória de qualquer jeito. Já o futebol brasileiro esperará mais que retranca e lampejo (ou sorte). O mesmo vale para o caso de o Grêmio estar em seu lugar. Mais que vencer, queremos que o futebol daqui chegue a jogar de verdade com um europeu. Com adaptações, mas jogando. Não rezando.

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