Flamengo compete, mas está sempre no limite

Créditos da imagem: André Durão / GloboEsporte.com

Para entender a perspectiva desta análise é preciso saber que o jogo é dividido em seis momentos. Além das organizações ofensivas e defensivas, saturadas em senso comum, as transições também ofensivas e defensivas existem entre elas; além das bolas paradas. São seis fases que se comunicam e constroem uma interdependência ao longo do jogo.

Atacar bem precisa significar defender bem. Mas defender não é sinônimo de estar instalado em campo defensivo ou simplesmente não possuir a bola. Ideias centrais do futebol passam pelo “atacar marcando” e “defender atacando”. Sendo assim, o analista que escreve este texto valoriza demais os momentos de transição para o contexto brasileiro. Pois destruir é mais fácil que construir por aqui. E nos raros momentos em que se abrem brechas naturais da exposição do momento ofensivo, é preciso ser letal.

Introduzido o cenário, o Flamengo compete. Tem elenco para isso e seu treinador talvez seja um dos maiores estrategistas do circuito. Abel Braga tem seu valor inestimável e sabe bem como potencializar valores individuais ou simplesmente mesclá-los. Seu Flamengo já é prova disso. As variações entre Bruno Henrique e Gabriel permitem ao primeiro ser agressivo nas costas dos defensores oponentes, seja com velocidade ou por cima, como gosta Abel. A maior liberdade posicional permite fluidez para os meias (Arrascaeta, Diego e Everton Ribeiro, independente de quem esteja em campo). Compensa a ausência de ruptura destes atletas com criatividade e antevisão do que pode fazer um talento individual. E ao mesmo tempo os alimenta com espaço para jogar.

Mas na contramão dos bons valores ofensivos apresentados, seu time parece desorganizado e despreparado para conter investidas dos rivais. É natural que o Fla atual controle menos o jogo. Afinal, Abel segue um caminho inverso aos últimos treinadores do rubro-negro, que buscaram estruturar a posse de bola e garantir formas de construir o jogo com mais paciência. Controlá-lo. Faltava profundidade e agressividade, por vezes. Fundamento para o atual trabalho.

A questão é que o Flamengo está sempre no limite. A quantidade de gols sofridos contra os menores ao longo do Campeonato Carioca atestara o sintoma; que fora remediado em jogos de maior importância e que exigiram maior concentração e foco dos defensores; respaldados ainda pelo ganho progressivo de ritmo de jogo e competição, além da evolução do estágio técnico e mental individual dos atletas.

Para todo sintoma, no entanto, existe uma causa. Ou uma série delas. O estágio individual de cada atleta já foi colocado na balança e é uma variável que foge aos maiores controles. Demanda tempo. É preciso olhar para o coletivo. Expostos na maior parte do tempo, Willian Arão e Cuellar parecem ser os únicos com função defensiva definida. Facilmente manipulados, são atraídos para os lados do campo a partir das perseguições induzidas pelos encaixes individuais na defesa, ou pela necessidade de cobertura dos extremos.

Porque na execução do 4-2-3-1 com variação para o 4-1-4-1 a partir do avanço de Arão no volante adversário, é perceptível que os pontas ainda busquem fechar o raio de ação dos laterais adversários, mas a velocidade nos movimentos e a agressividade passam longe. Efetivamente o Flamengo parece defender com até 6 jogadores (linha de 4 da defesa e os dois volantes) na maior parte do tempo.

O contraponto para o que vem acontecendo talvez passe por liberar o quarteto ofensivo para agredir o adversário após a retomada. Mas é pouco e não se justifica.

O time corre além do ideal. Em cenários como o da altitude de Quito, é suicídio. Porque as constantes compensações vão minando o condicionamento físico e induzindo o atleta a garantir sua zona de conforto. O reflexo talvez tenha se apresentado com o Fla optando por se postar mais próximo de seu gol após fazer 1 a 0 com Bruno Henrique. Todavia, o importante mesmo é entender como o relapso coletivo constrói o rumo da equipe. Afinal, quando o caráter aleatório não toma conta, os eventos anteriores vão condicionando o que se acontece a seguir, inclusive as falhas. Como dois dos mais comprometidos, Cuellar tem capacidade individual de desarme e interceptação; já Arão tem mais dificuldades.

A LDU investiu com maiores cruzamentos a partir da intermediária; o Vasco no segundo jogo da final optou por bola cavada no extremo oposto flutuando no espaço de Cuellar, e triangulações rápidas pelo lado direito. O Fluminense nas oportunidades que teve buscou aproveitar as transições. Alternativas que visaram desequilibrar o time de Abel por meio de suas maiores debilidades: proteger a entrada da área e controlar o avanço do adversário após a primeira pressão.

Cuellar e Arão atraídos para o lado da bola, Diego define a marcação na entrada da área, mas os zagueiros não parecem ter comportamento definido entre fechar o espaço ou individualizar em quem ocupa a área.

O vídeo abaixo apresenta momentos de transição defensiva e organização defensiva. São recortes de padrões dos últimos jogos do Flamengo que se repetiram na estreia do Campeonato Brasileiro contra o Cruzeiro e fundamentam questionamentos para o seguimento da temporada.

Twitter: @adrianomottaf1

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