Obrigado, “presidente Alves” – o verdadeiro tamanho de um reinado deposto pela vida real

Créditos da imagem: Ettore Chiereguini/AGIF

Clichê é um recurso tão tosco que deveria ser acompanhado por alarme de carro: “aviso, este debate está sendo clichezado! Afaste-se deste veículo!”. Claro que o espectador não vai fazer isso, ou não sobrará o que assistir. Mas deve rolar uma frustração ao saber que o cara ganha pelo mesmo chavão que você diz num bar – e paga no fim. O clichezão da sexta-feira foi clássico: “o São Paulo é maior que qualquer jogador!”. Clap, clap, clap… Então por que não consegue pagar esse jogador? Por que deixou esse jogador humilhá-lo com turismo olímpico? “Ah, mas estou falando da instituição São Paulo Futebol Clube!”. A instituição é o que a instituição faz. O SPFC só faz se apequenar.

Recorrer ao passado também é clichê, mas vale pra rebater outro chavão. Comparam a vinda de Daniel Alves às de outros veteranos. Mesma coisa que a patrulha do otimismo faz quando arrumam um uruguaio – vide Carneiro e agora Freddie Mercury. No tempo do Onça, o SPFC trouxe Leônidas da Silva pra ser o divisor de águas. Não queria ser apenas o time simpático da capital. Deu certo. No tempo do Leão (já jogava no Palmeiras), foi a vez de Gerson aparecer e tirar o time da fila do Morumbi. Então Daniel seria a sequência histórica pra acabar com a fila do Juvenal. Só esqueceram dois detalhes: 1 – nos tempos felinos de Leônidas e Gérson, Paulistão também era título pra adulto; 2 – o São Paulo não só podia pagar por Leônidas e Gérson, como pagou. Não levou pito público por dar calote. Sentiram o teorema?

O torcedor ficou “felizão”. Melhor jogador da Copa América (isso pesa?). Maior coleção de títulos (com Messi, até reserva do Barcelona levou uns dez). “E ele escolheu o São Paulo, que orgulho!”. Mas e o dinheiro, Pancho???? “Ah, é só…”. Pausa pro “é só. Leitor, sempre que alguém falar “é só…” pra vender uma ideia, “é só” você dar no pé e escapar da roubada. Voltando: “é só fazer um plano de marketing que paga e sobra!”. Também teve o malabarismo chapa-branca pra dizer que “ele topou graças ao Raí!”. Transformaram em trunfo uma escapadinha pra ver Roland Garros enquanto o time se enrolava no Brasil. Não teve plano de marketing. Não teve pagamento. Teve Raí e Leco colocando o clube de subalterno do empregado. Precisa de técnico? Daniel gosta do Doutor Albieri Diniz. Manda quem não pode, obedece quem tem rabo preso.

O jogador sabia que faltava dinheiro. Quem disse que se importava? Dinheiro prometido e não pago é dinheiro com juros. Um dia vai pintar. Tanto que aceitou receber em períodos maiores. Os atrativos eram outros. Jogar num futebol lerdo e fraco ajuda na longevidade até a Copa. E o melhor: sendo o que nunca pôde ser em time grande. Os clubes europeus sempre entenderam que o segredo com Daniel era não deixar que virasse o dono do time. No Barcelona, com Messi & CIA, era bastante simples. Já o PSG resolveu arriscar contra o Real Madrid e tomou a virada. Regra é regra. No tricolor foi diferente. Sabendo que clube sem pagar é clube sem moral, Daniel usou e abusou. Jogou onde quis e, literalmente, quando quis. Batucou, ganhou um campeonatinho e chamou o garçom: “chefe, paga a minha conta que estou vazando!”. Manda quem não pode…

O legado do universo egoísta e brega de Daniel Alves foi mostrar o tamanho do São Paulo no século. Um clube ultrapassado em todos os níveis e faixas etárias. Sim, teve quatro anos (2005-2008) em que foi o rei do pedaço. Mas era só um intervalo na decadência. Virou a década e todos os rivais ganharam coisa mais importante. Até quem foi rebaixado. Aliás, é capaz que alguém ainda ache uma boa cair, pra depois ganhar um título nacional na Serie B e “alegrar a garotada”. Expor a mediocridade são-paulina foi um presente involuntário de despedida. Só volta a ser grande aquele com noção da atual pequenez. Mas, se for pra empinar o nariz com clichês de soberano, vai demorar. E muito.

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