O técnico que (pensava que) sabia javanês

Créditos da imagem: Bruno Ulivieri/AGIF

Um clichê atual pra identificar um enganador é compará-lo ao protagonista de O homem que sabia javanês, de Lima Barreto. Pequeno spoiler: ele não conhecia nada além de umas poucas palavras. Mas conseguiu não ser desmascarado. Como? Aproveitando a tendência nacional a festejar sem questionar. Barreto entendia de Brasil como poucos, em qualquer tempo. Só que nem ele previu uma versão tão enganadora como Fernando Diniz. A ponto de até ele mesmo, Diniz, acreditar em seu conhecimento. É seu principal trouxa. Ainda que um trouxa remunerado.

Na adolescência, tinha um amigo que gostava de guitarra. Não só gostava, como pensava ser um prodígio. Dizia “se o Slash pode, por que eu não posso?”. Diniz olha o futebol europeu e pensa “se Guardiola pode, por que eu não posso?”. Ambos acham que só querer já é poder. Meu amigo não estudou técnicas pra reproduzir o guitarrista. Diniz não estuda nem Guardiola, nem Klopp, nem ninguém. Acredita que, com seus próprios métodos, pode repeti-los. Requentando coluna anterior (e aproveitando a reprise em seu final), é o Dr Albieri das táticas. Na novela, Albieri consegue clonar um Murilo Benício mais canastrão que o próprio. Mais spoiler: o Benício original vai ficar com a Jade. O clone termina seguindo o cientista louco. Exatamente como os times de Fernando Albieri Diniz. Existem, mas não sabem por quê. Resta seguirem o criador. Sem rumo.

No empate com o Bahia, outra clonagem sem motivo: o São Paulo trocou centenas e centenas de passes. Pep faz isso pra encontrar espaços. Não quer chegar à área rifando a bola. O clone do Morumbi deu uma chuveirada atrás da outra. Vai ver, Albieri Diniz pensou no colega de O jovem Frankenstein. Pegou o corpo de Guardiola e o cérebro de Muricy. Foi só um dos exemplos nonsense de seus times. Marcam adiantados, mas se desesperam quando tomam a bola. Meia dúzia volta pra sair jogando, com ninguém no meio quando a bola chega. Num dado momento, o espectador acha que também enlouqueceu. Não sabe se está vendo o clone do Benício ou ouvindo as imitações horrorosas de Eri Johnson. Ou então, com tanta droga em campo, se já chegou a hora dos depoimentos de viciados. Mas tem viciado em Diniz? Pior é que tem.

Depois que coloca na cabeça que uma pessoa é competente, o brasileiro leva anos pra se permitir uma revisão. Precisou de uma década pra cogitarem que Delfim, o gênio da economia, levou o país de volta ao buraco. Retomando Lima Barreto, o geneticista biruta é tão convicto de seu javanês que os outros também ficam. Não importa quantos sejam os fracassos. Nunca é a hora certa de demiti-lo. Prestigiar Diniz é importante, dizem os especialistas. Faz parte da luta contra o mais do mesmo – que, curiosamente, eles também elogiam. Quem pensar o contrário vira imediatista. Como assim, querer ser campeão em dois ou três anos? Precisa dar tempo de trabalho. Provavelmente, pelo andar da carruagem, os dez anos do Delfim. Depois, se a equipe não voltar da quarta divisão, talvez seja a hora de exigir resultados. Com jeitinho.

Tenho lido que, quando o professor aloprado for sacado do tricolor, terá sido sua chance derradeira. Bobagem. A língua portuguesa tem duas palavras mal compreendidas na colônia: “prioridade” e “ultimato”. Logo aparecerá outro crédulo no javanês clonado de Albieri Diniz. Vai que alguém cria uma teoria nova: “ele é ótimo mesmo, mas não pra clubes; seu verdadeiro lugar é a seleção brasileira!”. De preferência, como nas propagandas de TV, com garantia até a Copa de 2026. Diniz tem força na peruca, no javanês e, pra ficar no termo da moda, na ciência…

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