Sortudos e azarados – Ramalhos e Guardiolas – e Mirongas

Créditos da imagem: Montagem / No Ângulo

“Dei azar!” – disse Muricy Ramalho sobre pegar Guardiola e seu Barcelona na final do Mundial. Azar deu o futebol brasileiro por ter pegado Muricy. Azar dei eu. Quem acompanha meus textos desde 2008, no Fórum O Mais Querido, sabe que ele é a mula de Danilo Mironga, assim como Lula era a anta de Diogo Mainardi. Pois a mula, com sua “auto-não-propaganda”, foi um flagelo cujo impeachment custou a acontecer. Tal como outros impeachments, primeiro deram em coisa parecida (Cucabol) até aparecer algo melhor. Guardiola tinha Messi, Xavi, Iniesta, etc.. Tinha um modo de jogar que não deixava o adversário ver a cor da bola. Não precisava da sorte de enfrentar Muricy.

O que os dois técnicos tinham em comum era a capacidade de influenciar. Só que existe a ótima, a boa, a razoável, a má, a péssima influência, o Kiko e só depois (acredite, professor Girafales) Muricy. O “trabalho pra caramba” consistia em muito treino físico e de marcação. De resto, bola na área e sugar os criativos do time. A imprensa ia ao delírio com suas frases tipo “quer espetáculo, vá ao teatro!”. A mula deu sorte porque existia Luxemburgo. Era o seu Collor. Um era o marketing de terno e autopromoção. Muricy era o de agasalho que dizia ser o antimarketing e falava de si mesmo por horas. Na época do Mundial, estava no ápice da falsa humildade. Enfim tinha levado um mata-mata fora dos estaduais. Dias antes do jogo, fez a claque ir às lágrimas. “Quero ver Guardiola trenando (sem “i”, mesmo) um clube brasileiro”. Sim, arrogante é sempre o europeu.

Outra sorte de Muricy Ramalho foi ter sido auxiliar de Telê Santana. Virou um selo de adepto do jogo bonito. Dá até pra dizer que seu jogo não era tão horrendo. O São Paulo de 2006 e 2007 passava um semestre batendo cabeça e depois praticava um futebol agradável. Só que veio o tricampeonato, na base de bola na área e lampejos individuais. Muricy caiu de amores pelo “atalho”. Surgiu o Muricybol. Surgiu Danilo Mironga, seu combatente eterno. E o mais importante (infelizmente): o Muricybol virou moda. Deu tudo errado em 2009, mas 2010 e 2011 recolocaram a mula no topo. Enquanto Guardiola revolucionava com beleza e competitividade, ser competitivo no Brasil era jogar feio. E mal. Pois é, o seguidor de Telê consagrou tudo o que seu mestre mais repudiava. Vou perder meu lugar no Céu, mas tenho que dizer: discípulo pior, só Judas Iscariotes.

Devo reconhecer que Muricy não teve fé tão cega no jogo batizado com seu nome. Depois da Libertadores, ensaiou um meio-campo mais Barcelona, com Ibson e Elano emulando Xavi e Iniesta. Faltou saber ensaiar. Isso nem ele, nem os colegas sabiam. Tática era pra defesa. Ataque ficava com “a criatividade do jogador brasileiro”. Por esta lógica, Guardiola estaria podando o talento de seus jogadores ao treinar posicionamento ofensivo, triângulos e tal. Boa mesmo era a “bagunça organizada” (brasileiro adora repetir isso, sem entender o que significa). Então logo a mula desistiu da experiência. Só voltaria à carga depois da surra de Yokohama. O Muricybol mudou. Não era mais bola na área. Era toque pra tudo quanto é lado, menos pra área. A ignorância geralmente vem com extremos. Até por não ter nada no meio.

Imitar mal a Pep realmente foi o azar de Muricy. Rendeu só um Paulistão. Seu último título. A última glória seria salvar o São Paulo do rebaixamento, em 2013. Não sem perder um mata-mata de Sul-americana pra Ponte Preta. E teve o vice-Campeonato Brasileiro de 2014, bem atrás do Cruzeiro. Ah, e outros mata-matas perdidos, incluindo um contra o time de Osório. A saúde decretou o fim da carreira de técnico. Virou comentarista e me forçou a falar dele outra vez. O Danilo Mironga de 2008 passou a abordar vários outros assuntos. Nenhum, contudo, move tanto suas entranhas como a mula querida. Sorte ou azar?

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