SPFC: O estandarte do sanatório geral tem três cores

Créditos da imagem: Montagem / No Ângulo

Um ponto fascinante, não exatamente positivo (longe disso), é a capacidade de os brasileiros renovarem esperanças com expedientes que já deram muito errado. É como se ignorassem dois preceitos básicos. Um deles, tendo Einstein como suposto autor, define insanidade como fazer sempre a mesma coisa e esperar resultados diversos. O outro é que de onde nada se espera é que nada vai vir, mesmo. O brasileiro não aceita isso. Chega a ser desesperado quando busca exceções para transformá-las em regras. Prova desta infindável capacidade está na torcida do São Paulo nos últimos 12 anos. Não há nada que o clube não tenha tentado mais de uma vez. Nada deu certo. Mas o torcedor, bem canarinho, acredita.

Julio Casares esteve nos bastidores, quando não entre os dirigentes, durante todo este tempo. É um dos apóstolos de Juvenal Juvêncio. Ao contrário dos bíblicos, nenhum destes o traiu, muito menos o negou três vezes. Alguns até perderam a fé no seu messias, mas quando este já estava morto e enterrado – não necessariamente nesta ordem. Casares não abandonou esta fé. Pelo contrário, pois está tentando repetir o passado ignorando o próprio tempo. No mundo dos juvenalistas, o tempo foi o grande culpado pelo que se passa no clube. Virou o sofá do Morumbi. A solução? Ignorá-lo. No lugar de mudarem conforme a realidade, querem que esta mude. Por que? Porque simplesmente querem. No paraíso de Juvenal, tudo gira em torno do SPFC e o pecado foi o SPFC se mexer. Quebrou o equilíbrio e fez com que a conspiração a favor virasse caos. Pura ciência.

Os neo-juvenalistas acenam para a realidade. Por isso trouxeram Crespo. Mas é um truque. Acham que, se a realidade pensar que caíram na real, podem arquitetar a revanche do museu. Muricy de volta. Milton Cruz de volta. Três zagueiros de volta. Miranda de volta. Baciadas de contratações de volta. Uma versão inversa de Meia-noite em Paris – sim, aqui se pode citar Woody sem ser cancelado. Pena que o tempo, como de costume, não é generoso. Concede experiência, mas também traz a obsolescência e a decadência. Miranda já não era o mesmo antes de se perder na China. Muricy vinha constrangendo os colegas de SporTV com suas mesmices. Milton Cruz não deu motivos para arrependimento por ter sido dispensado. As baciadas já não fizeram sucesso desde que o Goiás, a “categoria de base” de 2005, despencou em placares e ambições.

Então como o são-paulino não consegue ver isso? Tudo seria culpa da tropa chapa-branca? Não acredito. A mídia influi, mas só porque há uma predisposição a continuar acreditando. Como coloquei na introdução, o excepcionalismo é paixão nacional. Nem que seja preciso recorrer à desonestidade intelectual – mesmo que de boa fé. Exemplo: toda vez que trazem um veterano sumido no globo, apelam para Cerezo em 1992. Omitem que a única coincidência era a idade. Cerezo era titular e ídolo do vice-campeão europeu, atuando no Campeonato Italiano – na época, o mais difícil. Não é que não existam exceções contra todos os prognósticos. Mas, como o dicionário insiste em lembrar, são exceções. Não raro, excepcionalíssimas. Com pouco dinheiro, é como gastar o dinheiro da luz, aluguel, etc… no azarão do páreo. Depois não sabem como foram parar na rua – e nas trevas.

Mas o são-paulino não quer saber. No exemplo acima, é como se tivesse se deparado com um cavalo de nome “Nostalgia” e decidido apostar tudo nele. Com um pequeno detalhe: já tinha apostado – e perdido – outras vezes. Como acontece com os compatriotas, sua memória se torna imprecisa de duas semanas para trás. Não é bem o que Einstein teria dito. O tricolor repete tentativas frustradas, mas tão somente porque esqueceu que falharam antes. Não sofre de loucura. É amnésia. Resta saber se patológica ou voluntária – ou ambas.

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