O ano da marmota ainda não acabou, são-paulino!

Créditos da imagem: Montagem / No Ângulo

Há quem pense que a criação de narrativas históricas é fenômeno atual. Sempre existiu. Hoje só tem mais divulgação. Com clubes de futebol não é diferente. Existe uma justificativa até heroica para o São Paulo Futebol Clube eleger o presidente de forma indireta. Segundo a doutrina cardealista, tudo seria para impedir que torcedores de outros clubes, enquanto sócios do SPFC, interferissem no futebol. Então os conselheiros, em especial os vitalícios, seriam uma espécie de “guardiões do passado, presente e futuro”. Pois o futuro do tricolor chegou, e muito mal guardado. Mas os “cardeais vingadores” querem mais exclusividade ainda. O futuro do futuro que se exploda.

O discurso sempre foi furado. Todos os clubes têm torcedores de outros clubes entre os sócios. Um são-paulino que mora na Pompeia não vai atravessar a cidade por uma piscina. Se quiser ser sócio de um clube, provavelmente escolherá o Palmeiras. E vice-versa. Nem por isso ouvimos falar de motins para escolher o pior. Menos ainda no São Paulo, clube em que nem mesmo havia disputa de fato até 1988 – quando Juvenal Juvêncio venceu Nunes Galvão. Sistema dos sonhos de saudosistas de um tempo em que o clube tinha dois títulos além de SP (Brasileirões de 1977 e 1986), nenhuma Libertadores e uma torcida distante das maiores. Era esse o São Paulo ideal. Aquele em que o time dos anos 1950 (Rui, Bauer, Noronha…) seria compulsoriamente lembrado como o maior de todos. Um clube mais adequado a um museu que a um estádio.

Ao dar o golpe estatutário de 2011, com apoio quase unânime e omissão da imprensa (quando não defesa descarada), Juvenal Juvêncio e sua trupe praticamente restauraram o São Paulo de chapa única. Distribuições de privilégios fizeram este papel. Só faltou o cargo de diretor adjunto de latrinas – e não estou certo sobre o “só faltou”. O resultado foi que, mesmo depois de um segundo mandato conturbado, o terceiro mandato teve mais votos que a reeleição anterior, feita após um bicampeonato brasileiro. Houve chapa contrária, mas com zero chance de vitória. O mesmo em 2014, com Carlos Miguel Aidar – mentor jurídico do golpe. Mesmo os sócios inconformados pouco puderam fazer, pois os conselheiros vitalícios desequilibram a favor do sistema. Eleição mesmo, só se a própria situação rachar. Mas situação rachada é situação do mesmo jeito, como se veria.

Em 2015, Aidar foi forçado a renunciar após o incidente da compra do zagueiro Maidana. Mas, no lugar de levar suas falcatruas à Justiça, os piedosos conselheiros decidiram passar o pano. Enquanto isso, Leco foi escolhido para ser o novo intocável. Mal assumiu e seguiu o exemplo de Juvenal. Manteve os privilégios (incluindo a verba do Carnaval das torcidas organizadas), com direito (?) a voo da alegria em jogo da Libertadores no México. O risco de rebaixamento em 2016 gerou uma nova tentativa de oposição, amparada por Abílio Diniz. A resposta de Leco foi trazer Rogério C como técnico e encampar uma modernização estatutária que parecia, mas não era. Estabelecia a obrigação de um estudo para separar futebol e parte social, mas sem prazo ou penalidade para a inação. O carro seguia caindo aos pedaços, mas que calota chique…

A amaldiçoada reeleição de Leco ainda teve a colaboração de Julio Casares. O autodenominado “pitbull do Juvenal” aceitou ter longas conversas com a tentativa de oposição. Tudo para enrolá-los até a véspera das inscrições e dar para trás. Sem alternativas, tiveram que recorrer ao ex-presidente Pimenta com seu telhado de vidro (a conversa da fita do empresário Todé). Foi a deixa para que jornalistas novamente apontassem o continuísmo como mal menor – incluindo, novamente, o ex-setorista Alexandre Lozetti*(que garantiu, em rede social, que um patrocinador misterioso só viria se Leco ganhasse – não veio). Com a vitória de Leco, o arremedo de “oposição-oposição” se foi. 2020 teve o duelo entre dois situacionistas se fantasiando muito mal de revoltosos. Se faltava uma prova, Julio Casares tratou de dar em 2021. Sem chance de dúvida razoável.

A narrativa do título paulista como incentivo à criançada colou, mas o real objetivo era distrair novamente a torcida. Com um título estadual e campanhas decentes em 2021, poderia levar seus planos secretos adiante. Quase deu certo. O time chegou às quartas-de-final da Copa do Brasil e da Libertadores. Só que as derrotas doeram. Na amada Libertadores, para os vice-campeões estaduais. Na Copa do Brasil, para o modesto – embora bem estruturado – Fortaleza. Mas problema mesmo foi passar mais de 90 % do Brasileirão assombrado pelo Z4. A boa vontade geral, bem como a verdade absoluta de que “nada podia ser pior que Leco”, estão em xeque (mate?). Demitir Crespo, que cumpriu a ordem de priorizar o Paulistão, e trazer Rogério C de volta também saiu pela culatra. Suas declarações amorosas ao Flamengo ainda estavam na memória popular.

Foi neste cenário nada soberano que os cardeais vieram confabulando um novo golpe para deixar o clube ainda mais nas mãos dos velhos ricos – paródia de 2012 que Danilo Mironga fez do programa “Mulheres Ricas”, no FOMQ. Para fingir modernização, a proposta reduz o número de conselheiros vitalícios, mas sem prejuízo do direito adquirido. Em compensação, dobra o mandato dos conselheiros eleitos. E para o presidente, nada? Ganha de volta o direito de se reeleger, retirado na última reforma. Tudo para deixar o sócio, quanto mais o torcedor, a anos-luz do processo político. Se o conchavo vingar, o tricolor paulista terá mais cara de SPPC (São Paulo Polo Clube) que de um time de futebol. Ter donos não é propriamente estranho ao esporte. Mas donos que pagam pelo clube. Não que o tomam na calada da noite, sob a vergonhosa vista grossa de juristas conselheiros.

O alívio desta segunda-feira foi apenas temporário. Uma hora o rebaixamento de fato virá. Enquanto isso, o São Paulo já está moralmente rebaixado. Só um vendido ou desavisado pode dar o clube como favorito a qualquer título. A não ser que faça o que fez no campeonato estadual – ainda assim, tremendo de medo de outro Mirassol. Nem é questão de colocar a boina e reclamar que o SPFC é um time de brancos héteros, como alguns tarados ideológicos. O elitismo é ruim com qualquer cor, gênero e sexualidade. Não há grandeza que resista ao poder de sua cretinice. Resta saber se o são-paulino (branco, negro, hétero, gay, mulher, trans, panda, etc..) levará mais esta punhalada apenas resmungando. Levará?

*o mesmo que, no final de SPFC x Juventude, disse que “um bloco sequestrou o SPFC nos últimos 10 anos”. Faltou reconhecer que foi a favor dos sequestradores desde 2011. Só mudou quando seu amigo Rogério C foi demitido por Leco. Que fique claro: Lozetti é muito capacitado e não precisava do “me ajuda a te ajudar”. Mas é bom que os desavisados saibam que ajudou – se foi ajudado, só ele e os envolvidos sabem.

Deixe sua opinião e colabore na discussão