Sobre a celebrada apresentação de Daniel Alves

Créditos da imagem: Rubens Cavallari/Folhapress

O conto dos entusiasmados

Nas suas crônicas sobre o país dos Bruzundangas (uma óbvia paródia do Brasil), Lima Barreto mencionava as organizações do entusiasmo. Eram festas que promoviam uma pessoa na base da exaltação. Exaltação a quê? Era o de menos. Acabei me lembrando da obra ao ver um coadjuvante (ainda que padrão Octavia Spencer) levar quarenta mil ao Morumbi, como se fosse Tom Cruise. Sim, Daniel Alves tem por onde ser exaltado. Não é a típica figura vazia bruzundanga. Mas seu novo endereço é cada vez mais vazio. De conquistas e transparência. Já era assim quando, logo após o golpe de Juvenal, Luís Fabiano foi recebido por outra organização do entusiasmo. O que veio em seguida só entusiasmou hienas adestradas.

Na apresentação, esperava-se… A quem estou enganando? Ninguém realmente achava que Raí revelaria os parceiros de parte da conta. Ou, se ainda não acharam as parcerias, como o São Paulo vai segurar a onda sem dar calote nos outros jogadores. Nem seria crível contar que alguém da imprensa perguntaria. Acreditar nisso seria entrar no cinema com o filme pela metade. Quem pegou do começo já saca que o roteiro é outro. Mas, se não esperado, era o profissionalmente devido. É muito dinheiro pra não dizerem de onde virá. Mais ainda num clube que suplicou ao Conselho pra aprovar um empréstimo, ou não conseguiria pagar salários. Não é por menos que a gozação da semana foi que o ouro roubado está no Morumbi. O que, obviamente, é surreal. O SPFC surrupiando aquilo tudo sem ser pego? Até o português e o papagaio dariam melhor credibilidade à piada.

“Ah, mas e se os parceiros pediram anonimato?”. Primeiro, já seria difícil de engolir. Segundo, se for verdade, os dirigentes deveriam justificar a incrível discrição. Não é o usual. Não cheira bem. Quando Ronaldo jogou no Corinthians, até quem não tinha nada a ver com o assunto quis aparecer. Além do eventual santo, cabia explicar o retorno do investimento. Percentual por venda de jogador não pode. Pelo menos não oficialmente, ou a FIFA pune. Parcela da cota de TV? Ações de marketing? Todos aqueles efeitos especiais, vídeos comoventes e… nada de informação e jornalismo. Se mandassem a equipe do TV Fama, daria na mesma. Enquanto isso, o Twitter de Petros virava o “deu no New York Times” dos bobos alegres. O que vai rolar ainda? Calleri? Fly Emirates? Ibra (essa não falaram, mas seria divertido)? O grosso da galera promovido a Repórter Esso.

No país dos sampadangas, não se compartilham dúvidas. Só certezas. “Não há dúvidas de que fulano vai funcionar”. E não funciona. “Não se questiona a capacidade de beltrano”. E beltrano vai pro banco ou é mandado embora, questionadíssimo. “Cicrano era a peça que faltava pro time engrenar”. E emperra de novo. Dizia Sartre, popularizado por Gessinger, que a dúvida é o preço da pureza. No mundo tricolor, a falta de dúvida é o triunfo da incompetência. No lugar de duvidar, o torcedor escraviza os neurônios com a endorfina da contratação. Cria raciocínios pra decretar que já deu certo e o campeão voltou. Quando não volta, busca culpados até o dia em que uma nova certeza cozinhará o que resta de sua memória. Com o perdão da repetição, ele não é vítima. É cúmplice. Vítima, costumeiramente, tem sido o escudo beijado nas apresentações. Com grande entusiasmo.

Meu consolo, como são-paulino, é que meu time não está nessa sozinho. O Flamengo quer trazer Balotelli. Que não joga nada que preste há anos. Se vier, com certeza teremos o Maracanã lotado pra superar o público de ontem no Morumbi. As torcidas de São Paulo e Flamengo sempre disputaram o apelido de mais querido. Agora a batalha é pra ver quem faz mais oba-oba. Com uma diferença: o Flamengo tem como pagar a grana. O São Paulo? Provavelmente, só o mico.

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